A sequência dos fatos é quase cômica se você ignorar quem paga a conta. A Anthropic, empresa de inteligência artificial que faturou manchetes ao se desentender com o Pentágono, anuncia uma "grande expansão" no Reino Unido. Semanas antes, a OpenAI inaugura seu primeiro escritório permanente em Londres. E o governo britânico, com a sofreguidão de quem perdeu um império e ainda não aceitou o luto, sai cortejando as duas com a carteira do contribuinte aberta. Ninguém perguntou ao trabalhador de Manchester ou de Birmingham se ele gostaria de subsidiar a instalação de laboratórios de IA cujos lucros serão expatriados para a Califórnia. Ninguém nunca pergunta.

O que a imprensa chama de "campanha para atrair investimento" é, traduzido para o idioma dos que pagam impostos, um leilão de privilégios. Isenções fiscais, infraestrutura subsidiada, regulação sob medida, acesso facilitado a universidades públicas cujas pesquisas foram financiadas por décadas de tributação. O padrão é antigo e funciona sempre da mesma forma: o Estado oferece o que não é dele, o que pertence ao cidadão, para seduzir corporações que jamais retribuirão na mesma moeda. Quando a British Steel afundou, ninguém abriu tapete vermelho. Quando os pescadores de Grimsby perderam o sustento, ninguém montou um "pacote de atração". Mas para uma empresa do Vale do Silício que brigou com o Pentágono, há champanhe e contrato.

E aqui está o detalhe que a narrativa oficial enterra com elegância diplomática: a Anthropic não veio para Londres porque ama a cultura britânica ou o fish and chips. Veio porque rompeu com o aparato militar americano e precisa de um novo patrono estatal. O Pentágono queria IA para drones e vigilância; a Anthropic, ao menos publicamente, recuou. Mas recuar do complexo industrial-militar de um país não significa recuar do poder estatal, significa apenas trocar de balcão. O Reino Unido, que opera o GCHQ, que integra os Five Eyes, que mantém um dos aparatos de vigilância mais sofisticados do planeta, é uma alternativa "ética" ao Pentágono da mesma forma que trocar de cassino é uma alternativa à jogatina. O dinheiro continua fluindo na mesma direção; só muda o croupier.

A OpenAI, por sua vez, finca escritório permanente em Londres com o instinto territorial de quem sabe que onde há subsídio estatal, há fila. Sam Altman não cruza o Atlântico por saudade da monarquia. Cruza porque governos europeus, desesperados para não ficarem de fora da corrida da IA, estão dispostos a oferecer o que governos sempre oferecem quando entram em pânico: dinheiro alheio. A corrida tecnológica do século XXI replica com precisão cirúrgica a corrida armamentista do século XX. Os mesmos mecanismos, os mesmos incentivos perversos, os mesmos perdedores. Naquela época eram fábricas de mísseis; hoje são data centers. O contribuinte financiava ogivas nucleares que o ameaçavam; agora financia algoritmos que o substituem. O progresso, como se vê, é uma questão de perspectiva.

O mais revelador nessa história não é o que as empresas fazem, porque empresas fazem o que o incentivo manda, e incentivos distorcidos geram comportamentos distorcidos. O revelador é o que o Estado britânico confessa sem perceber: que não confia no mercado para atrair inovação organicamente, que precisa intervir, manipular, subsidiar, coagir com dinheiro público para que algo aconteça em seu território. É a admissão tácita de que décadas de regulação, tributação sufocante e burocracia tornaram o Reino Unido tão pouco atraente para capital produtivo que agora é preciso pagar para que venham. E quando o governo paga, o governo escolhe os vencedores. E quando o governo escolhe os vencedores, os perdedores são sempre os mesmos: os pequenos, os que não têm lobby, os que não jantam com primeiros-ministros. A inteligência artificial prometia democratizar o conhecimento. Pelo visto, vai democratizar apenas a conta.

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.