O espetáculo aconteceu no Centro Educacional Evandro Ayres de Moura, em Fortaleza, e teve todos os ingredientes da liturgia brasileira do poder, microfones, militância paga, sanduíches de mortadela e a velha promessa de redenção. O homem que já foi tudo na vida pública resolveu, mais uma vez, oferecer seus serviços ao contribuinte cearense. A pré-candidatura ao governo do Ceará é apresentada como gesto cívico, quase um sacrifício, como se o sujeito estivesse abandonando uma carreira lucrativa no setor privado para servir à pátria. Detalhe inconveniente, o setor privado nunca o sustentou. O sustento sempre veio do mesmo lugar, do seu bolso, do meu, do bolso de quem trabalha enquanto ele faz pose de salvador.

É preciso ter alguma coragem, ou alguma amnésia coletiva, para encenar lançamento como se fosse estreia. O personagem já foi prefeito, governador, ministro, deputado, candidato a presidente em quatro tentativas, e mesmo assim insiste em se vender como novidade fora do sistema. É como o ilusionista que serra a mulher ao meio toda noite há trinta anos e ainda espera aplausos de espanto. A novidade aqui não é o produto, é a embalagem, repintada conforme a estação eleitoral exige. Numa década gritou contra o mercado, em outra abraçou o desenvolvimentismo, depois flertou com o liberalismo, agora retorna ao calor das máquinas estaduais. Bússola moral com ímã de cargo público sempre aponta na mesma direção, a do orçamento.

Convém perguntar, e essa é a pergunta que ninguém faz nos telejornais, quem financia tudo isso. Quem paga o palanque, quem paga o som, quem paga as caravanas, quem paga os assessores fardados de coordenadores de campanha. Há sempre um arranjo, há sempre uma cadeia de favores antecipados, há sempre empreiteiras que torcem em silêncio, sindicatos que aparelham militância, igrejas oportunistas, prefeitos do interior calculando emendas futuras. A política brasileira é o único ramo de atividade onde se gasta milhões para conquistar um emprego que paga milhares, e ainda assim sobram candidatos. A matemática só fecha se a gente entender que o salário é o detalhe menos relevante da equação. O verdadeiro retorno está em outra coluna da planilha, aquela que o eleitor não vê.

O cenário escolhido também merece atenção, um colégio militar municipal, ou seja, prédio público, pago com tributo extraído à força de comerciantes, motoristas de aplicativo e donas de casa cearenses. O sujeito usa o patrimônio coletivo como palco particular para anunciar que pretende administrar esse mesmo patrimônio. É a reciclagem perfeita do dinheiro alheio, primeiro confiscam, depois usam o confisco para pedir mais poder de confiscar. A plateia aplaude porque foi convencida, ao longo de gerações, de que isso é normal, de que política é assim mesmo, de que sem um messias estadual o Ceará viraria deserto. Esqueceram que o Ceará já era Ceará antes desses senhores, e seguirá sendo depois deles, com ou sem a permissão dos coronéis modernos.

Há um silogismo discreto rondando esse tipo de evento e quase ninguém repara. Se o sujeito vive da política há quarenta anos, e se a política no Brasil se sustenta exclusivamente pela extração compulsória de renda do produtor, então o sujeito vive, há quarenta anos, do produtor que ele despreza nos discursos. A conclusão é desconfortável, mas é inevitável. Toda candidatura nesse molde é um pedido formal de licença para continuar tirando o pão de quem trabalha e redistribuí-lo entre quem aplaude. Chamar isso de projeto de desenvolvimento é o mesmo que chamar de filantropia o assalto a mão armada feito em parcelas mensais e com recibo timbrado.

Resta a pergunta que abre e encerra qualquer análise honesta sobre o circo eleitoral, quem paga e quem recebe. Quem paga é o cearense anônimo, aquele que acorda às cinco para vender tapioca, abrir loja, dirigir táxi, cuidar dos filhos sem creche, esperar atendimento em hospital sucateado. Quem recebe é a casta que reveza cadeiras há gerações, com sobrenomes que se repetem, alianças que se refazem, inimizades que se desfazem na hora do café. O lançamento de Fortaleza não é início de nada, é apenas mais um capítulo de uma novela cujo roteiro o eleitor financia sem ter direito de mudar o final. E enquanto continuar achando que voto resolve o que só a desconfiança radical resolveria, vai seguir comprando ingresso para a peça em que ele próprio é o personagem ridicularizado.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.