O presidente de Cuba abriu a boca e saiu de lá uma das frases mais antigas do repertório do déspota acuado: estamos prontos para morrer pela pátria. Dito assim, com o peito estufado, a voz firme, o queixo erguido na direção da câmera, como se a disposição para o sacrifício fosse uma virtude e não a última linha de defesa de quem não tem mais nenhum argumento econômico, nenhuma conquista social real e nenhuma resposta plausível para a fila de cubanos que atravessam fronteiras a pé para não morrer de fome dentro da ilha que deveriam, segundo ele, defender com a própria vida. A retórica do mártir é sempre o último recurso de governos que faliram em tudo que a política existe para fazer: organizar uma comunidade de modo que seus membros floresçam, não apenas sobrevivam esperando pela morte honrosa que o líder prescreveu para eles.
Mas o que realmente merece atenção não é a convocação ao sacrifício, que é vulgar e previsível. O que merece atenção é a outra afirmação, a que passou quase em silêncio porque já foi dita tantas vezes que ninguém mais ri: os líderes cubanos não representam uma elite, disse ele, mas são eleitos com base na participação popular. Vamos examinar essa proposição com a seriedade que ela não merece, mas que a lógica exige. Cuba tem um sistema de partido único desde 1959. Candidaturas independentes são proibidas na prática. A imprensa é controlada pelo Estado. A dissidência é criminalizada. E o mesmo núcleo familiar e ideológico manteve o controle do aparato político, militar e econômico por mais de sessenta anos. Se isso não é uma elite no poder, então a palavra "elite" perdeu qualquer significado, e o senhor presidente está convidado a explicar qual arranjo institucional, exatamente, qualificaria como tal, para que ao menos possamos usar o mesmo dicionário na conversa.
Existe uma figura clássica de raciocínio político que consiste em nomear as coisas ao contrário do que são, sistematicamente, até que a inversão se torne o vocabulário oficial. O Estado que confisca propriedades é chamado de redistributivo. O partido que elimina a concorrência é chamado de democrático. A nomenclatura que herda cargos, distribui privilégios para os seus e pune os discordantes é chamada de representativa. Não é nova essa operação, foi usada por todo regime autoritário que quis vestir a raposa com pele de ovelha, da França revolucionária que guilhotinava em nome da liberdade ao bloco soviético que construía muros em nome da paz. A novidade cubana, se é que há alguma, é a longevidade do embuste: sessenta e tantos anos do mesmo espetáculo, com plateia cada vez mais escassa porque parte dela fugiu de jangada.
Segue-se a trilha do que o Estado cubano produziu em seis décadas de participação popular e liderança não elitista: racionamento de alimentos que envergonharia um administrador colonial do século XVIII, infraestrutura elétrica que apaga cidades inteiras com regularidade, hospitais sem medicamentos, uma diáspora de milhões espalhada por Miami, Madri e qualquer outra cidade que aceite gente desesperada, e uma economia que depende das remessas que essa mesma diáspora envia do exterior, ou seja, do capitalismo que o regime passou a vida condenando. O produto interno da ilha é sustentado pelo dinheiro que seus próprios expatriados mandam de países que, segundo a doutrina oficial, exploram o trabalhador. Há uma ironia aí que nem o mais obtuso dos apologistas consegue ignorar por completo, embora muitos tentem com afinco admirável.
A pressão de Trump não muda a análise, apenas fornece o gatilho para o discurso de sempre. Todo regime que não consegue justificar sua existência pelos resultados que entrega aos governados precisa de um inimigo externo permanente, porque sem o inimigo externo o olhar interno se volta para a geladeira vazia, o hospital sem gaze e a escola sem livros. O imperialismo americano é, nesse sentido, o maior patrimônio imaterial do governo cubano: sem ele, a conversa inevitavelmente derivaria para a questão de por que, depois de mais de meio século de revolução, o povo que foi convocado a morrer pela pátria não tem eletricidade confiável. Morrer pela pátria é uma proposta muito mais fácil de aceitar quando não há alternativa concreta de vida digna dentro dela. Isso não é heroísmo cívico. É o nome correto para a falta de opções.
No fim, o que o presidente cubano descreveu como participação popular é o mesmo arranjo que qualquer oligarquia bem assentada usa para se perpetuar: a aparência de legitimidade sem o substrato real dela, que é a possibilidade genuína de alternância, discordância e responsabilização. Uma eleição sem candidatos alternativos não é eleição, é cerimônia. Uma pátria que você é convidado a morrer por ela, mas da qual não pode sair livremente, não é pátria, é prisão com hino. E uma elite que governa há sessenta anos com os filhos e os aliados dos fundadores, controlando cada empresa, cada microfone e cada fuzil, não deixa de ser elite só porque o líder afirmou isso diante de uma câmera. As coisas são o que são, não o que o discurso quer que sejam. Esse é o único axioma de que a análise política honesta realmente precisa.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.