Na próxima terça-feira, 19 de maio, o avião presidencial russo pousa em Pequim. Cinco dias antes, o mesmo solo recebeu o americano. Não é agenda apertada, é coreografia. Quando dois rivais declarados desfilam pelo mesmo salão na mesma semana, com o anfitrião sorrindo no centro da foto, a conclusão se impõe sem esforço: a China não está escolhendo lado, está vendendo cadeira. E cobra caro de cada visitante pela ilusão de que ele saiu de lá em vantagem.
O cidadão comum, aquele que financia tudo isso com o suor do mês inteiro, é treinado a engolir esses rituais como se fossem assuntos de Estado, coisa elevada, geopolítica, palavras grandes que servem justamente para que ninguém pergunte o óbvio. E o óbvio é simples: quem paga o jato presidencial, quem paga a comitiva, quem paga o aparato de inteligência que assessora a conversa, quem paga o aço da fábrica que será beneficiada pelo acordo bilateral assinado entre o cafezinho e a foto oficial? Sempre o mesmo trouxa, em três línguas diferentes, sob três bandeiras diferentes, com o mesmo bolso furado.
Olhem a sequência com frieza de relojoeiro. O americano vai a Pequim falar de tarifas, de chips, de terras raras, e volta dizendo ao seu eleitorado que apertou a mão firme do adversário. Dias depois, o russo desembarca no mesmo aeroporto, é recebido pelo mesmo anfitrião, e volta a Moscou dizendo ao seu povo que firmou aliança estratégica contra o ocidente decadente. As duas narrativas são vendidas como vitórias domésticas. Ambas são verdadeiras na superfície e falsas no fundo. O único vencedor real é quem ficou em casa, manda servir o chá, e assina contratos de cinquenta anos enquanto os outros dois posam para câmera.
Há uma cena clássica da diplomacia europeia do século dezenove em que pequenos principados se ofereciam alternadamente a potências maiores, jogando uma contra a outra para extrair o máximo de cada uma. A diferença é que aquilo era jogo de fracos contra fortes. Aqui o suposto fraco virou o forte, e os dois supostos fortes fazem fila para serem usados, cada um convencido de que está usando o outro. É a velha lógica do confeiteiro que vende o mesmo bolo para dois clientes inimigos, em horários diferentes, e ainda recebe gorjeta dos dois pela discrição.
E enquanto a imprensa séria, aquela que se autointitula séria, gasta colunas explicando o significado da ordem das visitas, do protocolo, do comprimento do tapete, ninguém faz a pergunta que importa: que indústrias específicas, que oligarcas específicos, que conglomerados estatais específicos lucram diretamente com cada um desses encontros? Porque política externa não é abstração, é contrato. Cada aperto de mão presidencial tem nome, sobrenome e CNPJ do beneficiário final. O resto é teatro para distrair o pagador da fatura.
A graça amarga de tudo isso é que se vende como multipolaridade, como nova ordem mundial, como reequilíbrio de forças, quando na prática é apenas a velha mecânica de sempre: três monopólios da violência negociando entre si como dividir o produto da pilhagem dos respectivos súditos. Mudam os idiomas dos comunicados oficiais, mudam as cores dos uniformes da guarda de honra, muda a marca do conhaque servido no jantar. Não muda quem paga, não muda quem recebe, não muda o sorriso forçado do trabalhador que abre o contracheque na sexta-feira e descobre que metade já se foi para custear esse balé.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.