Os mercados asiáticos abriram em alta, o petróleo recuou, e os analistas de plantão repetiram a palavra mágica que justifica qualquer rali especulativo: esperança. Esperança de um acordo entre Estados Unidos e Irã. Como se a diplomacia entre uma potência que mantém 750 bases militares ao redor do globo e um país que vive sob sanções asfixiantes há quatro décadas pudesse ser reduzida a um sentimento de otimismo nos pregões de Tóquio e Sydney. O que os terminais Bloomberg mostram em verde é apenas a superfície de um jogo cujas regras foram escritas muito antes de qualquer manchete.
A mecânica é velha e conhecida por quem se dá ao trabalho de observar. Primeiro, você estrangula um país com sanções que impedem sua população de comprar insulina e peças de avião. Depois, quando a economia civil está em ruínas e o regime suficientemente desesperado, você oferece um "acordo" que na prática é uma capitulação negociada. Os mercados celebram a queda do barril porque enxergam oferta futura de petróleo iraniano voltando ao mercado, mas ninguém se pergunta a que custo humano aquele petróleo ficou represado durante anos. Sanções não são instrumentos diplomáticos. São cercos medievais travestidos de política externa, e quem morre de fome dentro das muralhas nunca aparece nos gráficos de candlestick.
Há uma pergunta que nenhum correspondente financeiro jamais faz quando o petróleo despenca por rumores de distensão: quem já se posicionou antes do movimento? Quando contratos futuros de energia oscilam bilhões de dólares em questão de horas com base em "fontes próximas às negociações", alguém com acesso privilegiado à mesa de negociação está transformando informação diplomática em lucro. Isso aconteceu antes do acordo nuclear de 2015, aconteceu durante a saída unilateral americana em 2018, e está acontecendo agora. O mercado não opera por esperança, opera por informação assimétrica. A esperança é a narrativa que vendem para o investidor de varejo que compra no topo.
O padrão se repete com precisão cirúrgica desde que o petróleo se tornou o sangue do sistema financeiro global. Tensão militar infla o barril, enriquece produtores e especuladores. Promessa de paz derruba o barril, enriquece quem apostou na queda. Nos dois cenários, os mesmos fundos, as mesmas tradings, os mesmos bancos que assessoram governos e simultaneamente operam mesas proprietárias capturam a volatilidade. O ciclo entre guerra e paz no Oriente Médio não é uma tragédia geopolítica, é um modelo de negócio. As fabricantes de mísseis lucram na escalada, as petroleiras lucram na distensão, e os bancos lucram nos dois momentos porque financiam ambos os lados. O contribuinte americano, que pagou cada dólar das sanções, cada centavo da presença militar no Golfo Pérsico, cada nota de cada porta-aviões estacionado no Estreito de Ormuz, esse não aparece em nenhuma coluna de lucro.
E enquanto os índices Nikkei e ASX piscam em verde e os comentaristas celebram o "apetite por risco renovado", convém lembrar o que um acordo EUA-Irã realmente significa na prática. Significa que Washington decidiu que, neste momento, é mais lucrativo negociar do que bombardear. Não há princípio moral envolvido, não há preocupação humanitária genuína, não há iluminação diplomática súbita. Há um cálculo frio de que o petróleo iraniano no mercado global serve melhor aos interesses americanos agora do que o petróleo iraniano bloqueado. Quando esse cálculo mudar, e ele sempre muda, as sanções voltam, a retórica belicosa retorna, e os mesmos mercados que hoje sobem vão despencar com a mesma velocidade. O investidor médio vai perder dinheiro, o analista vai culpar "fatores geopolíticos imprevisíveis", e o ciclo recomeça. Ninguém no pregão jamais admite a verdade mais elementar da geopolítica moderna: a paz é tão lucrativa quanto a guerra, desde que você saiba a hora exata em que uma se transforma na outra.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.