Sexta-feira, dezenove e vinte e nove no horário local. Um estrondo no norte da China e noventa famílias descobrem, antes mesmo do nascer do sol, que o salário do mês virou indenização. A mídia estatal anuncia o número com a frieza burocrática de quem já preencheu este formulário centenas de vezes, porque preencheu mesmo. A China lidera há décadas o ranking macabro de mortes em minas de carvão, e cada explosão é tratada como acidente isolado, nunca como sintoma de um modelo. O modelo, no entanto, está escrito a sangue nas paredes de cada galeria desabada.
O paradoxo é delicioso para quem gosta de hipocrisia bem temperada. O mesmo regime que desfila em conferências climáticas prometendo pico de emissões e transição verde é o maior consumidor de carvão do planeta, responsável por mais da metade da queima global do mineral. Enquanto diplomatas chineses assinam comunicados em Dubai e Belém, capatazes em Shanxi empurram trabalhadores para dentro de poços inseguros porque a meta de produção do Partido não admite atraso. A geopolítica energética da próxima década não será decidida em fóruns multilaterais, será decidida no pulmão preto de mineiros que ninguém entrevista.
Siga o dinheiro e a paisagem fica mais clara. O carvão chinês alimenta as siderúrgicas que produzem o aço que vai para as fábricas que montam o painel solar exportado para a Europa como símbolo da transição limpa. O ocidente terceirizou sua consciência ambiental para um regime que não precisa prestar contas a sindicato, imprensa livre ou família de vítima. A energia barata que sustenta a margem da Apple, da Tesla, da Volkswagen e de cada varejista que enche contêiner em Shenzhen tem preço fixo em vidas humanas, e esse preço é pago no escuro, longe das câmeras, em províncias cujo nome o consumidor europeu jamais saberá pronunciar.
Há um padrão histórico que se repete com a regularidade de um relógio suíço. Toda potência em ascensão industrial passa pela fase em que o operário é insumo descartável. Aconteceu nas minas de Gales no século dezenove, aconteceu em Donbass sob Stálin, aconteceu nos cafezais paulistas com os imigrantes italianos. A diferença é que no Reino Unido houve imprensa para denunciar, parlamento para legislar e tribunal para condenar. Na China contemporânea há um Partido único que controla a estatística, a investigação e o obituário. Quando o Estado é simultaneamente o dono da mina, o regulador da segurança, o juiz do processo e o redator da notícia, a explosão sempre será classificada como fatalidade técnica.
Os noventa mortos desta sexta não eram quadros do Partido nem filhos de membros do Politburo. Eram camponeses migrantes do interior, gente que aceitou descer ao inferno por um salário que mal cobre o aluguel em cidade grande. Morreram para que a engrenagem girasse, para que a meta do plano quinquenal fosse cumprida, para que algum burocrata em Pequim recebesse promoção por desempenho regional. O Estado mandou, o cidadão sangrou, e amanhã a produção será retomada com novos contratados, porque a fila de famintos é maior do que a fila de caixões.
Há quem ainda acredite que o modelo chinês é um milagre econômico digno de imitação. Talvez seja, se a métrica de sucesso ignorar quem foi triturado pelo caminho. O verdadeiro PIB de uma nação não está na soma do que ela produz, está no que sobra do trabalhador depois que ele cumpre a jornada. Em Shanxi, hoje, o que sobra são noventa atestados de óbito e um silêncio oficial que vale mais do que mil decretos. O carvão queimou, a luz acendeu, e ninguém viu o rosto de quem ficou no escuro.
Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.