Vamos começar pelo que ninguém diz em voz alta enquanto milhões de pessoas param suas vidas para assistir ao confronto entre Atletico Madrid e Barcelona: a UEFA vai faturar mais com essa partida do que a maioria dos países africanos gera em receita fiscal no mesmo período. A Liga dos Campeões distribuiu mais de dois bilhões de euros entre os clubes participantes apenas na última edição, e esse número cresce todo ciclo com a mesma regularidade com que os ingressos ficam inacessíveis para o torcedor que nasceu a dois quarteirões do estádio. O espetáculo foi profissionalizado, financeirizado e exportado para o mundo, mas o sujeito que sempre foi ao jogo com o pai agora assiste pela televisão porque o ingresso custa o equivalente a três dias de salário mínimo.
O Barcelona chega a esta partida carregando uma das histórias financeiras mais espetacularmente mal contadas da última década no esporte mundial. O clube acumulou uma dívida que chegou a ultrapassar um bilhão e trezentos milhões de euros, contratou jogadores com salários que deformavam qualquer planilha minimamente séria, e então ativou o que chamou, com toda a sobriedade possível, de "alavancas econômicas", que é o eufemismo corporativo para vender receitas futuras antecipadamente, ou seja, comprometer o que ainda não existe para pagar o que já venceu. É a lógica do Estado aplicada ao futebol: gasta-se o que não se tem, transfere-se o custo para quem ainda não nasceu e chama-se isso de gestão. O que distingue um governo insolvente de um clube de futebol insolvente é que o clube ao menos tem que prestar contas para uma entidade regulatória. Ao menos teoricamente.
O Atletico Madrid, por sua vez, construiu seu Wanda Metropolitano com capital chinês. O grupo Wanda, do empresário Wang Jianlin, adquiriu vinte por cento do clube em 2015 por quarenta e cinco milhões de euros, numa época em que o capital chinês estava varrendo ativos europeus com a velocidade de quem sabe que a janela de oportunidade tem prazo de validade. Não havia amor pelo futebol madrileno nessa transação. Havia cálculo geopolítico e diversificação de portfólio num ambiente em que o governo de Pequim ainda permitia saída de capital para o exterior. Quando a política mudou, o capital recuou. O clube ficou. O torcedor nunca soube de nada disso e continuou cantando nas arquibancadas como se aquele projeto de estádio fosse a expressão natural de uma identidade coletiva. Era um ativo financeiro com setenta mil lugares.
A Champions League existe hoje como o produto mais bem-sucedido já criado pela indústria do entretenimento esportivo europeu, e sua engenharia de receitas é digna de estudo em qualquer escola de negócios que leve dinheiro a sério. Os direitos de transmissão são vendidos mercado a mercado, explorando ao máximo a elasticidade de preço em cada território. As cotas de participação garantem que os grandes clubes, independentemente do desempenho, recebam fatias desproporcionais da receita total, o que cria um sistema de retroalimentação onde quem já é rico fica mais rico por já ser rico. Não é mérito esportivo. É rent-seeking com chuteiras. Os clubes menores participam do torneio para legitimar a competição e são eliminados cedo o suficiente para não incomodar o calendário de confrontos entre as marcas mais valiosas. O torneio precisa de zebra ocasional para parecer imprevisível. Mas as finais são escritas em Zurique, não em campo.
E no centro de tudo isso está o torcedor, essa figura quase comovente na sua lealdade irracional. Ele que paga o streaming, compra a camisa que muda de modelo todo ano para forçar nova compra, viaja para ver o time fora de casa, tatua o escudo na pele, ensina o filho a torcer antes de ensinar a ler. Ele que nunca vai ser consultado sobre a tentativa de criação de uma Superliga fechada que transformaria seu clube numa franquia e seu campeonato numa liga de entretenimento americana com patrocinadores de criptomoedas. Ele que foi às ruas protestar quando o projeto vazou, genuinamente acreditando que sua voz importava, e que ganhou essa batalha enquanto perdia silenciosamente todas as outras que realmente definiam a relação entre ele e o negócio que chama de paixão. Venceu a batalha simbólica. Perdeu a guerra econômica.
Esta noite, quando Barcelona e Atletico Madrid entrarem em campo, o espetáculo será real, a emoção será real, o sofrimento e a alegria dos noventa minutos serão perfeitamente autênticos. Isso ninguém tira do futebol, e seria desonesto fingir que a beleza do jogo é uma ilusão fabricada. Mas a moldura ao redor desse jogo, os bilhões que circulam, os contratos que são assinados, os direitos que são negociados, as dívidas que são roladas, os investidores que entram e saem, essa moldura não tem nada de bela e nada de espontânea. É a velha história de sempre: o espetáculo é público, o lucro é privado, e a conta chega para quem não estava na mesa quando a decisão foi tomada. O pão e o circo sempre foram assim. Só mudou o nome do patrocinador.
Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.