Existe uma categoria especial de insulto institucional que só o Estado moderno consegue perpetrar com cara limpa: gastar o dinheiro do contribuinte para ensinar o contribuinte a sobreviver às consequências das próprias políticas do Estado. A Austrália acaba de inscrever seu nome nessa galeria com distinção. Catorze milhões de dólares, extraídos da folha salarial de motoristas, enfermeiras, professores e pequenos comerciantes, foram convertidos em anúncios explicando que calibrar os pneus e remover o rack do teto economiza gasolina. O país que produziu a Grande Barreira de Corais, o ópala de Coober Pedy e os merinos de lã fina agora precisa pagar publicitários para lembrar seus cidadãos de que peso extra consome mais combustível. É a vitória do óbvio sobre o orçamento público.
Mas o óbvio raramente é o ponto. O ponto é sempre o que fica fora do anúncio. A Austrália, como quase todo país desenvolvido, passou a última década em guerra declarada contra sua própria matriz energética: fechou usinas a carvão antes de ter substitutas confiáveis, encareceu a energia elétrica ao ponto de tornar o carregamento de veículos elétricos proibitivo para a classe média, e taxou o combustível com a eficiência cirúrgica de quem sabe exatamente onde apertar para extrair o máximo antes que o contribuinte perceba. O resultado foi o preço da gasolina num patamar que faz o motorista comum fazer contas no posto. E a solução encontrada pelo aparato governamental foi uma campanha de 14 milhões ensinando esse mesmo motorista a ligar o manômetro. Roma, no século quinto, distribuía pão e circo. Camberra, no século vinte e um, distribui dicas de manutenção veicular financiadas pelo próprio povo que não consegue pagar o tanque cheio.
Há uma lógica perversa aqui que merece ser nomeada sem eufemismo: quando o Estado cria um problema, ele nunca resolve o problema; ele cria um programa para gerenciar o problema, e o programa exige um orçamento, e o orçamento exige uma agência, e a agência contrata consultores, e os consultores produzem relatórios que recomendam campanhas, e as campanhas são terceirizadas para agências de publicidade, e as agências de publicidade faturam, e no fim do ciclo o motorista ainda está pagando caro na bomba, mas agora também financiou o salário de uma cadeia inteira de intermediários que existem exclusivamente porque o problema original nunca foi resolvido. Isso não é conspiração; é o modelo operacional padrão do governo moderno, documentado em cada crise energética dos últimos cem anos.
O timing também não é inocente. Governos em dificuldade política descobriram há muito tempo que campanhas de "conscientização" têm um duplo benefício: custam dinheiro suficiente para justificar um ministério, mas não custam o suficiente para mudar nada estrutural, o que garante que o problema continue existindo e o ministério continue sendo necessário. Enquanto isso, a narrativa se desloca sutilmente: o problema deixa de ser a política energética equivocada e passa a ser o comportamento irresponsável do cidadão que não calibrou o pneu. A culpa migra do formulador para o receptor. É um movimento retórico elegante, e custa apenas 14 milhões.
O escárnio público que a campanha gerou é a reação saudável de pessoas que ainda conseguem reconhecer o absurdo quando ele aparece etiquetado com o logotipo do governo. Mas o escárnio não devolve o dinheiro. Não derruba o preço do combustível. Não questiona por que a política energética australiana, construída ao longo de décadas com bilhões em subsídios e regulações, produziu um cidadão que precisa ser ensinado a tirar o rack do teto para chegar ao fim do mês. A conta veio, como sempre, antes do questionamento. O trabalhador comum pagou a campanha que explica como ele deve se virar com o que o governo criou. O Estado encarece a vida, depois vende a solução, depois cobra pela propaganda da solução. O circo perfeito tem três picadeiros e só um pagante.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.