Ben Roberts-Smith, o rosto que a propaganda australiana pendurou em outdoors para justificar vinte anos de aventura no Afeganistão, acaba de ser formalmente acusado de cinco assassinatos tipificados como crime de guerra. Ele promete lutar. É claro que promete. O mesmo aparato estatal que o enviou para o outro lado do mundo, armado até os dentes, com licença implícita para tratar aldeões como alvos móveis, agora se encolhe em uma poltrona de tribunal fingindo que não sabia. A medalha Victoria Cross, o maior símbolo militar do Império Britânico reciclado, foi entregue com pompa quando ele era produto de marketing. Virou constrangimento no dia em que virou evidência.
A fábula oficial sustenta que soldados condecorados são anomalias virtuosas, guerreiros escolhidos pela providência para representar o que há de melhor em uma nação. A realidade é mais prosaica e infinitamente mais suja. Exércitos modernos selecionam, treinam e recompensam o tipo exato de comportamento que, praticado em Sydney ou Melbourne, renderia prisão perpétua. A diferença entre o herói e o criminoso não está no ato, está no uniforme no momento do ato, no mapa debaixo dos pés e no comunicado oficial emitido depois. Mude qualquer uma dessas três variáveis e a medalha vira algema.
Convém lembrar quem pagou essa festa. O contribuinte australiano bancou cada bala, cada helicóptero, cada botina, cada diária do acampamento de Tarin Kowt, cada contrato milionário com as empreiteiras logísticas anglo-americanas que lucraram absurdamente com duas décadas de ocupação. Bancou também as campanhas de relações públicas que transformaram operações noturnas em literatura épica para consumo doméstico. O afegão comum, por sua vez, pagou com a vida dos filhos, com a casa demolida, com o campo minado, com a herança cultural pulverizada por drones que custam mais do que toda a economia de sua aldeia. A conta da guerra nunca fecha para quem a decreta, sempre fecha para quem a sofre.
Há um padrão histórico que se repete com precisão mecânica. Toda potência ocupante produz seus próprios monstros íntimos e depois precisa fingir que eles agiram sozinhos. Os belgas fizeram isso no Congo, os franceses na Argélia, os americanos no Vietnã e no Iraque, os britânicos em praticamente todo canto do globo que coloriram de rosa em seus mapas imperiais. O soldado individual é sacrificado no ritual purificador do tribunal justamente para que a instituição saia ilesa. Condena-se o executor para absolver o mandante. Pune-se o dedo no gatilho para blindar a cadeia de comando, o ministério, o parlamento, o think tank que escreveu a justificativa, a empresa de defesa que lucrou com o contrato.
Enquanto Roberts-Smith prepara sua defesa, os verdadeiros arquitetos da carnificina afegã seguem aposentados com pensões generosas, em conselhos consultivos de empresas de armamento, em cátedras universitárias patrocinadas por fundações do complexo industrial-militar. Nenhum deles jamais se sentará no banco dos réus, porque a lei internacional foi cuidadosamente desenhada para perseguir o recruta e poupar o estrategista. O tribunal alcança o homem que apertou o gatilho, nunca o burocrata que assinou a ordem de missão, muito menos o acionista que recebeu dividendos trimestrais da Lockheed, da BAE Systems, da Raytheon, enquanto a guerra durava.
O mais sinistro de tudo é a hipocrisia da reviravolta narrativa. A mesma imprensa que o canonizou agora o linchará com entusiasmo idêntico, porque a função do jornalismo institucional raramente foi informar e quase sempre foi fabricar o consenso conveniente do momento. Ontem, Roberts-Smith era a prova viva de que a missão valia a pena. Hoje, é a prova viva de que houve excessos pontuais em uma operação fundamentalmente nobre. Amanhã, quando for conveniente, será esquecido completamente. A máquina precisa de novos rostos para vender a próxima guerra, e essa máquina não quebra, apenas troca de peça.
Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.