A Aviat Networks, fabricante americana de equipamentos de transmissão por micro-ondas, anunciou expansão de sua plataforma para ampliar conectividade em regiões onde fibra ótica é economicamente inviável. O leitor desavisado pode achar que é mais um press release técnico de empresa de telecom, e seguir adiante. Mas pare um instante e olhe o que está realmente acontecendo. Uma companhia privada, sem audiência pública, sem comitê interministerial, sem grupo de trabalho com vinte representantes da sociedade civil, simplesmente decidiu que existe demanda não atendida e investiu capital próprio para atendê-la. É isso. Foi assim que ferrovias atravessaram continentes no século dezenove e é assim que torres de micro-ondas vão conectar o sertão no século vinte e um.
O contraste com o modelo oficial é cômico se não fosse trágico. Há décadas o Estado brasileiro cobra a chamada CIDE-Telecom, o FUST, o FUNTTEL, fundos setoriais inchados que somam dezenas de bilhões de reais arrecadados com a promessa solene de universalizar telecomunicações. E onde está esse dinheiro? Boa parte foi contingenciada para fazer superávit primário, outra parte virou cargo comissionado, outra parte foi para projetos que ninguém audita. Enquanto isso, a conectividade real, a que efetivamente chega no produtor rural, no garimpeiro legalizado, na escolinha do interior, vem de empresas privadas que ninguém elegeu e que ninguém precisa fiscalizar porque o cliente fiscaliza com o cancelamento do contrato.
Repare na inversão. O que se vê é o anúncio corporativo, frio, técnico, quase entediante. O que não se vê é a engrenagem inteira de capital de risco, engenheiros, pesquisa em modulação de espectro, cadeia de suprimentos global, instalação em terreno hostil, manutenção em condições adversas, tudo coordenado sem que nenhum ministro precise assinar nada. Essa coordenação silenciosa entre milhões de decisões individuais é justamente aquilo que nenhum planejador central jamais conseguiu replicar, e nem vai conseguir, porque o conhecimento necessário para fazer isso funcionar está pulverizado entre engenheiros, vendedores, técnicos de campo e clientes, e não cabe em planilha alguma de secretaria.
Tem mais. Micro-ondas é exatamente o tipo de tecnologia que o discurso oficial despreza como "solução de segunda categoria", porque o sonho do planejador é sempre fibra para todos, satélite de baixa órbita estatal, projeto faraônico com inauguração e fita cortada. A realidade é que tecnologia adequada vence tecnologia ideal toda santa vez. Onde fibra não fecha conta, micro-ondas conecta. Onde satélite custa caro demais, torre terrestre resolve. Essa humildade pragmática, essa disposição de oferecer a solução que funciona em vez da solução que impressiona, é monopólio de quem opera sob restrição orçamentária real, ou seja, do setor privado. Burocrata não tem restrição orçamentária, tem dotação. E dotação se gasta, não se otimiza.
O dado mais interessante, porém, é geopolítico. A Aviat é americana, mas seus principais concorrentes são chineses, com Huawei à frente, fortemente subsidiados pelo regime de Pequim como instrumento de projeção de poder. Cada contrato fechado por uma empresa ocidental de telecom em mercado emergente é um contrato a menos para a infraestrutura crítica de comunicações cair sob influência de um governo que trata dados como ativo estratégico do Partido. Quem acha que isso é detalhe técnico não entendeu nada do século que está começando. A guerra fria do nosso tempo passa pelo cabo submarino, pela torre de micro-ondas e pelo roteador de borda, e quem dorme nesse ponto acorda colonizado.
No fim, a lição é antiga e o jornalismo econômico brasileiro insiste em não aprender. Conectividade não cai do céu por decreto, não brota de fundo setorial, não nasce de programa de governo com nome heroico. Conectividade é construída, parafuso por parafuso, por gente que arrisca capital próprio esperando lucro. Chamar isso de ganância é o passatempo predileto de quem nunca instalou uma antena em lugar nenhum. O resto do mundo agradece a ganância, porque é ela que liga o telefone que o moralista usa para reclamar dela.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.