A propaganda foi impecável. Legalizar a maconha resolveria o problema das prisões superlotadas, secaria o caixa do tráfico, encheria os cofres públicos com impostos novos e devolveria ao adulto o direito sagrado de fazer da própria vida o que bem entendesse. Anos depois, nenhuma dessas promessas se cumpriu como prometido, mas algo aconteceu sim: surgiu uma nova indústria bilionária, com lobistas em cada capital estadual americana, escritórios de advocacia especializados, fundos de investimento dedicados e uma legião de consultores vendendo licenças como quem vende título de capitania hereditária. O produto mudou de nome, mudou de embalagem, ganhou código de barras, e o cidadão, esse continua sendo o mesmo otário de sempre.

Bairros inteiros de cidades americanas relatam o mesmo padrão. Dispensários abrindo em esquinas que antes eram padarias, lojas clandestinas brotando ao lado das legalizadas porque o imposto da versão regulada deixa o produto caro demais, fumaça invadindo apartamentos vizinhos, moradores idosos sem conseguir abrir a janela, escolas cercadas por outdoors coloridos que prometem felicidade em forma de gomas de gelatina. A receita tributária prometida é uma fração ridícula dos custos sociais que o governo agora finge não ver. O tráfico não morreu, apenas migrou para o produto mais potente, para as variedades sintéticas, para o mercado paralelo que segue oferecendo preço melhor justamente porque não carrega no lombo a tributação que financia a burocracia que regula o vício.

Siga o dinheiro e o teatro se desfaz. Quem ganhou com a legalização não foi o pequeno produtor independente nem o usuário recreativo que queria sossego. Quem ganhou foram os conglomerados que já tinham capital para pagar as licenças caríssimas, os bancos que finalmente puderam intermediar o fluxo, os fundos de Wall Street que farejaram margem em mercado novo, os políticos que receberam doações generosas de campanha e as agências reguladoras que multiplicaram cargos comissionados para fiscalizar o que antes era apenas um problema de polícia. A indústria farmacêutica observou tudo de longe, calculando o momento certo de entrar com sua versão patenteada do mesmo princípio ativo. O capitalismo de compadrio não inventa nada novo, apenas troca o rótulo do produto.

O argumento moral usado para vender o projeto era impecável e, em parte, verdadeiro. O adulto tem direito sobre seu próprio corpo, a guerra às drogas foi um desastre humanitário, encarcerar consumidor é covardia disfarçada de virtude. Tudo isso continua verdade. O que a propaganda escondeu é que legalizar não significa libertar. Significa transferir o monopólio da violência policial para o monopólio da licença burocrática. O traficante de bairro foi substituído pelo executivo de terno que precisa do mesmo Estado que antes prendia o consumidor para agora proteger sua margem de lucro contra a concorrência informal. A liberdade prometida virou cartório. O direito individual virou alvará.

História repete o roteiro com fidelidade entediante. Quando o álcool voltou a ser legal nos Estados Unidos depois da proibição, os mesmos gângsteres que enriqueceram contrabandeando bebida compraram destilarias legítimas e viraram filantropos respeitáveis. Quando os jogos de azar foram regulamentados em estado após estado, as máfias que controlavam o cassino clandestino abriram capital na bolsa. O padrão é sempre o mesmo: o Estado proíbe, cria um mercado negro lucrativo, depois legaliza e entrega esse mercado de bandeja para quem já tinha estrutura para operá-lo. O moralista financia a primeira fase, o progressista financia a segunda, e o contribuinte paga as duas.

O backlash agora cresce porque os custos finalmente venceram a propaganda. Famílias que apoiaram a legalização no plebiscito hoje fazem abaixo-assinado para fechar a loja na esquina de casa. Prefeitos que defenderam a medida no palanque agora pedem mais polícia, mais fiscalização, mais regulação, ou seja, exatamente o aparato estatal inchado que a legalização supostamente vinha enxugar. O resultado prático foi a soma do pior dos dois mundos: continua existindo mercado ilegal, surgiu mercado legal predatório, o Estado cresceu, o imposto subiu, o bairro piorou, e o usuário que queria apenas ser deixado em paz descobriu que o novo dono do negócio é mais ganancioso que o antigo. Liberdade não se decreta em assembleia legislativa, e quem promete paraíso costuma estar vendendo o terreno.

Com informações da The Federalist. A análise e opinião são do O Algoz.