Um terço de todo o petróleo transportado por via marítima atravessa, todo santo dia, um corredor de água de menos de quarenta quilômetros de largura entre o Irã e a Península Arábica. Quem controla esse gargalo controla o preço da gasolina em São Paulo, do diesel em Roterdã e do plástico em Xangai. E é justamente o pequeno Bahrein, ilha-Estado que abriga a sede da Quinta Frota da Marinha americana desde os anos 1990, que agora aparece como autor virtuoso de uma resolução na Assembleia Geral pedindo livre navegação e o fim dos ataques iranianos. O ventríloquo está confortavelmente sentado em Manama, mas a voz, qualquer um com ouvido treinado reconhece, vem de Norfolk, Virgínia.

Cento e doze votos. O número impressiona o leitor desavisado e diverte o observador atento. Resoluções da Assembleia Geral não obrigam ninguém a nada, não disparam sanções automáticas, não autorizam uso de força. Servem para uma única coisa útil: produzir manchete, fabricar consenso moral, blindar politicamente a próxima escalada militar. Quando os porta-aviões aparecerem mais uma vez no Golfo, quando o próximo navio for abordado, quando o próximo míssil cruzeiro Tomahawk for disparado contra alguma instalação atribuída à Guarda Revolucionária, alguém recitará religiosamente o número cento e doze como se fosse mandato divino. É a velha alquimia diplomática que transforma constrangimento de votação em licença para matar.

Siga o dinheiro e a hipocrisia se desnuda sozinha. Bahrein hospeda a frota americana mediante contrato que lhe rende proteção dinástica para uma monarquia sunita que governa uma maioria xiita revoltada desde 2011, quando tanques sauditas atravessaram a ponte King Fahd para esmagar protestos que ninguém na ONU lembrou de defender. Os Emirados, parceiros entusiastas da resolução, compraram nos últimos cinco anos algo próximo de vinte e três bilhões de dólares em armamento ocidental, incluindo F-35 sob negociação e sistemas Patriot já entregues. A Arábia Saudita, que finge esquecer que bombardeia o Iêmen há uma década usando bombas com etiqueta de Raytheon e Lockheed, posa de defensora da paz marítima. A conta da defesa do Golfo é paga em petrodólares reciclados em títulos do Tesouro americano e em contratos de armas. O nome técnico disso é simbiose. O nome honesto é tributo imperial.

O Irã, claro, não é vítima inocente. O regime dos aiatolás financia milícias, sequestra cargueiros, mantém o Hezbollah, os houthis e o que sobrou do Hamas em algum tipo de respiração assistida. Mas a análise honesta exige perguntar o que precede o quê. Foram quase cinco décadas de sanções acumuladas, da apreensão de ativos no Chase em 1979 até o assassinato de Soleimani em 2020, passando pelo rompimento unilateral do acordo nuclear em 2018, decisão que custou ao Irã algo entre cem e duzentos bilhões de dólares em exportações bloqueadas. Asfixie uma economia por quarenta anos e depois finja surpresa quando o asfixiado morde a mão que aperta seu pescoço. Sanção é guerra travada sem declaração formal, e seu efeito mais palpável não atinge generais nem clérigos, atinge o aposentado de Isfahan que não consegue importar insulina e a grávida de Mashhad sem antibiótico.

Quem ganha com tudo isso é fácil de mapear se houver coragem de olhar a planilha. Os estaleiros americanos que mantêm a frota no Golfo. Os fabricantes de mísseis que reabastecem estoques aliados a cada incidente. As seguradoras marítimas de Londres que cobram prêmios de guerra inflados sobre cada barril que atravessa o estreito. Os traders de Genebra que lucram com a volatilidade que eles mesmos ajudam a fabricar com cada manchete alarmista. E, no topo da pirâmide, o sistema do dólar petrolífero, que precisa de tensão permanente para justificar a presença militar que sustenta a moeda de reserva, que financia o déficit, que paga as guerras, num círculo que só se fecha à custa do contribuinte ocidental e do consumidor global. Cento e doze países acabaram de assinar, sem ler as letras miúdas, mais um capítulo desse contrato de adesão.

No fim, o navegador comum, o marinheiro filipino do petroleiro, o pescador iraniano de Bandar Abbas, o motorista de caminhão que abastece em Dubai, nada têm a ver com geopolítica e tudo a perder com ela. A liberdade de navegação que tanto se invoca jamais foi liberdade de quem navega; é liberdade do império de impor a rota. Estreitos não pertencem a quem os margeia, pertencem a quem patrulha o céu acima deles. E enquanto cento e doze chancelarias aplaudem em pé, alguém em algum escritório de Bethesda já está calculando o próximo trimestre de lucro.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.