O Bahrein convocou o embaixador iraquiano. Isso significa, na linguagem codificada da diplomacia do Golfo, que algo foi explodido ou afundado perto o suficiente para incomodar os palácios, mas longe o suficiente para não justificar uma guerra aberta, que seria inconveniente para todos, exceto para quem vende os mísseis de defesa costeira. Os grupos pró-Irã baseados no Iraque continuam suas operações apesar do cessar-fogo, o que levanta uma questão que nenhum chancelaria vai responder: qual cessar-fogo, exatamente, foi assinado por quem, e com que garantias? Porque cessar-fogos no Oriente Médio moderno funcionam como contratos de fornecimento de energia, cada cláusula tem uma exceção e cada exceção tem um patrocinador.

O Bahrein é um caso de estudo em dependência estratégica. Uma ilha de menos de 800 quilômetros quadrados que abriga a sede da Quinta Frota dos Estados Unidos, o que faz dela simultaneamente um protetorado disfarçado de reino e um alvo permanente para qualquer força regional que queira mandar uma mensagem a Washington sem atacar território americano diretamente. Toda vez que um drone cai nas proximidades do estreito ou um navio mercante é atingido no Golfo, o governo do Bahrein tem a obrigação coreografada de protestar formalmente, convocar embaixadores e emitir comunicados, porque é isso que Estados-cliente fazem para justificar a presença do patrono. A nota de protesto e o porta-aviões ancorado no porto são dois lados da mesma moeda.

O Iraque, por sua vez, vive há duas décadas numa posição que seria cômica se não fosse trágica: um Estado cuja soberania foi destruída por uma invasão americana em 2003, reconstruída com dinheiro americano de forma incompleta e propositalmente dependente, e agora pressionado a controlar milícias que o próprio processo político iraquiano integrou às estruturas formais do Estado. As Forças de Mobilização Popular, das quais muitos desses grupos fazem parte, são juridicamente forças paramilitares reconhecidas pelo governo de Bagdá. Pedir ao Iraque que contenha esses grupos é como pedir ao governo federal americano que contenha a indústria de lobby em Washington. A estrutura toda foi construída para que isso não aconteça.

O padrão se repete com uma regularidade que deveria envergonhar qualquer jornalista que ainda cobre a região com cara de espanto. Cada escalada no Golfo tem o mesmo ciclo de vida: ataque de grupo não-estatal, convocação diplomática, declaração de que "não ficaremos sem resposta", compra emergencial de sistemas de defesa, reunião da Liga Árabe, declaração conjunta vazia, e silêncio até o próximo ataque. Em 2019 era o ataque às refinarias sauditas. Em 2021 eram os drones hutistas contra Abu Dhabi. Agora são os grupos iraquianos pró-Irã contra alvos no Bahrein. O cenário muda, os contratos de armamento não. Nos últimos cinco anos, os países do Golfo compraram mais de 150 bilhões de dólares em equipamento militar americano. A paz no Oriente Médio seria um desastre para o balanço financeiro de várias empresas listadas na Bolsa de Nova York.

O que ninguém discute, porque discutir seria inconveniente para a narrativa de segurança regional que justifica toda essa arquitetura de dependência, é que o trabalhador iraquiano que vive em Basra, o pescador bahreinita que opera no Golfo, o comerciante kuwaitiano que exporta pelo estreito de Ormuz, esses não têm nenhuma voz nessa disputa de influência entre Teerã, Washington e Riade. Eles pagam o custo com frete mais caro, com rotas bloqueadas, com seguros marítimos que triplicaram desde 2023, com o medo cotidiano de que uma crise fabricada em salas de reunião muito distantes das suas casas decida quando e como eles vão conseguir trabalhar. O Estado manda, o cidadão sangra, e o embaixador convocado toma um café e volta para casa.

Convocações diplomáticas são teatro. O verdadeiro negócio acontece nos corredores paralelos, onde os fluxos de financiamento das milícias se cruzam com os contratos de reconstrução, com os royalties de petróleo, com as concessões portuárias, com as rotas de contrabando que todo conflito prolongado inevitavelmente gera. O Irã não financia esses grupos por idealismo revolucionário, financia porque projeta poder sem expor seu território. Os Estados do Golfo não convocam embaixadores por indignação moral, convocam porque precisam justificar aos seus cidadãos por que continuam gastando fortunas com segurança sem produzir segurança. E os Estados Unidos não mantêm frotas no Golfo por altruísmo, mantêm porque o petróleo que sai daqui ainda precifica tudo, de gasolina em Ohio a trigo na Argentina. O mapa do Oriente Médio não é uma questão de fronteiras. É uma questão de balanços patrimoniais. E enquanto os balanços estiverem no azul, nenhum cessar-fogo vai durar o bastante para estragar os negócios.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.