O comunicado saiu redondo, polido, com aquele verniz técnico que serve para impressionar repórter de agência e tranquilizar ministro nervoso. O banco central da Hungria manteve a taxa básica e adotou, segundo o jargão consagrado, uma postura cautelosa diante das pressões inflacionárias e da volatilidade externa. Traduzindo do economês para o português dos vivos, isso significa que ninguém ali sabe o que está fazendo, mas todos concordaram em fingir que sabem, e o ato de não decidir foi vendido como a decisão mais sábia possível. Cautela, aliás, é a palavra mágica que banqueiro central usa quando quer comprar tempo às custas da poupança alheia.
O problema de fundo, que nenhum comunicado oficial vai admitir, é que a inflação húngara não caiu do céu nem veio do vento da Ucrânia, como o roteiro oficial gosta de sugerir. Ela foi fabricada anos antes, no momento exato em que a autoridade monetária expandiu crédito artificial para financiar a alegria fiscal de Viktor Orbán e seu projeto de capitalismo nacional com lastro em amigos do governo. Toda festa monetária cobra ressaca, e a ressaca chegou na forma de forint depreciado, energia cara e supermercado salgado. Agora, com a casa pegando fogo, os bombeiros decidiram que o mais prudente é observar as chamas.
Vale notar quem se beneficia desse imobilismo travestido de sabedoria. Juros parados em patamar elevado favorecem o setor financeiro alinhado ao regime, que captura spread generoso enquanto o pequeno produtor, o comerciante e o assalariado húngaro absorvem o custo do crédito impagável. Não é coincidência que a banca local raramente reclame da política monetária, ainda que viva criticando, em voz baixa, a ortodoxia europeia. Quando o arranjo funciona para quem está sentado à mesa do poder, o sofrimento alheio vira variável de planilha, e a planilha sempre fecha em favor de quem a desenha.
Há, ainda, a comédia geopolítica embutida no episódio. Budapeste quer agradar Bruxelas para destravar fundos europeus, agradar Moscou para garantir gás barato, agradar Pequim para receber investimento em fábrica de bateria, e agradar o próprio eleitorado para vencer mais uma eleição. Política monetária, nessa equação, deixa de ser ciência aplicada e vira coreografia diplomática. O juro não responde mais à realidade dos preços, responde à agenda do gabinete. Quando a moeda vira instrumento de barganha política, o cidadão comum descobre que sua poupança foi transformada em moeda de troca sem ninguém ter pedido sua autorização.
E é aqui que mora a lição que ninguém na imprensa econômica internacional terá coragem de tirar. Não existe banco central prudente, existe banco central que ainda não foi forçado a escolher entre conter inflação e proteger o governo de plantão. Quando a hora chega, e ela sempre chega, a escolha é invariavelmente pela conveniência do poder, nunca pela saúde do dinheiro. A independência das autoridades monetárias é uma ficção solene mantida por estatutos que valem o papel em que foram impressos, papel esse, convém lembrar, fabricado pela mesma instituição que promete defendê-lo.
O recado húngaro serve para o resto do continente, e em especial para quem ainda acredita que a Europa civilizada resolveu seus problemas monetários. Não resolveu, apenas exportou a vergonha para a periferia, onde o forint quebra primeiro, o zloty quebra depois, e a confiança no euro será a última a ruir, no dia em que ninguém esperar. Enquanto isso, em Budapeste, seguem chamando de cautela aquilo que sempre foi, é, e será covardia institucional financiada pelo confisco silencioso da inflação.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.