A banda sul-coreana BTS levou novamente o prêmio principal do American Music Awards, e a manchete passou pela imprensa como se fosse mais uma notícia de entretenimento, dessas que ocupam o rodapé entre a cotação do dólar e a previsão do tempo. Pois é justamente aí que mora a piada. O troféu mais cobiçado da música popular dos Estados Unidos, país que durante setenta anos exportou Elvis, Sinatra, Madonna e Michael Jackson para cada esquina do planeta, foi entregue a sete rapazes que cantam em coreano para uma plateia global que aprendeu a cantar junto sem entender uma palavra. Repita isso devagar e veja se a ficha cai.

O fenômeno não caiu do céu, e quem acha que sim precisa estudar um pouco mais de história econômica. O governo sul-coreano, desde os anos noventa, tratou a exportação cultural como política industrial deliberada, com subsídios, incentivos fiscais, agências estatais de promoção e um arranjo cuidadoso entre conglomerados privados e Estado para empurrar K-pop, K-drama e culinária coreana mundo afora. É o velho mercantilismo travestido de soft power, com a diferença de que desta vez funcionou, porque por trás do empurrão estatal havia algo que o mercado consumidor de fato quis comprar. Quando subsídio encontra demanda real, o resultado parece mágica; quando encontra apenas a vaidade do planejador, vira a Cinelândia esvaziada às terças-feiras.

Mas o que esta premiação realmente expõe não é a competência coreana, e sim a decomposição cultural americana. Hollywood produz refilmagens de refilmagens, a indústria fonográfica de Los Angeles vive de algoritmo do TikTok, e a maior potência cultural da história ocidental terceirizou sua imaginação para um país do tamanho de Portugal porque andou ocupada demais policiando pronomes e reescrevendo bibliografias universitárias. Enquanto isso, os coreanos faziam o trivial que toda civilização vigorosa faz: trabalhavam duro, treinavam talentos com disciplina quase militar, e ofereciam ao público algo que ele quisesse consumir sem culpa.

Há uma lição econômica embutida que ninguém quer enunciar em voz alta. O consumidor, quando deixado em paz, vota com a carteira e com o fone de ouvido, e o resultado dessa votação descentralizada é infinitamente mais honesto do que qualquer prêmio decidido por academia, comitê ou painel de especialistas. Os americanos que escolheram BTS não consultaram ninguém, não preencheram formulário de diversidade, não esperaram aprovação do The New York Times. Simplesmente apertaram play algumas bilhões de vezes, e o mercado registrou a preferência com a frieza implacável que só ele tem.

Para o Brasil, que insiste em achar que cultura se faz com Lei Rouanet, edital do Ministério da Cultura e cota de exibição em rádio FM, fica o exemplo amargo. A Coreia não conquistou o mundo distribuindo dinheiro público para amigos do regime fazerem documentários sobre si mesmos. Construiu uma indústria competitiva, exigente, que paga seus artistas conforme entregam resultado, e abriu as portas para o capital privado fazer o que sabe fazer melhor que qualquer secretário de cultura: descobrir o que as pessoas querem antes mesmo que elas saibam que querem. O Brasil, em compensação, continua subsidiando o desconhecido para platéias inexistentes e chamando isso de política cultural.

O troféu na mão dos sul-coreanos é, no fim das contas, um espelho. Mostra que o império cultural não cai por invasão estrangeira, cai por suicídio interno, quando deixa de produzir beleza e passa a produzir sermão. Mostra também que liberdade de escolha do consumidor é a única curadoria que sobrevive ao tempo. E mostra, sobretudo, que enquanto uns discutem em conferência acadêmica se ainda é permitido apreciar uma boa melodia sem checar a etnia do compositor, outros simplesmente fazem a melodia, vendem o ingresso e levam o prêmio para casa.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.