Dez mil vendas. Noventa e dois por cento de aprovação. Entrega em tempo recorde. Não existe instituto federal, agência de fomento, ministério competente ou força-tarefa interministerial capaz de produzir um número sequer parecido com esse, em qualquer setor que seja. E no entanto, enquanto o país discute quais universidades públicas merecem mais repasse orçamentário para produzir teses sobre gênero e epistemologia decolonial, uma empresa de biotecnologia nacional foi lá, desenvolveu um kit de tratamento capilar com Fator de Crescimento, colocou no Mercado Livre e o próprio consumidor fez o resto. Nenhuma resolução da ANVISA precisou orientar a escolha. Nenhum programa de transferência de renda precisou subsidiar a demanda. O preço, o parcelamento e o resultado falaram por si.

Há um princípio antigo, tão antigo que virou lugar-comum justamente porque é verdadeiro, segundo o qual a troca voluntária entre pessoas que buscam seu próprio bem é o único mecanismo de coordenação social que não exige um déspota no centro. Quando um comprador decide gastar seu dinheiro em algo, ele está emitindo um sinal preciso, irrefutável e irrecorrível: isso vale o preço que está sendo cobrado. Dez mil pessoas disseram isso sobre um produto de biotecnologia nacional. Nenhuma delas foi convocada por decreto. Nenhuma delas recebeu nota técnica do Ministério da Saúde recomendando a compra. Simplesmente abriram o aplicativo, leram as avaliações, viram as fotos de antes e depois, e sacaram o cartão. É assim que a civilização funciona quando os planejadores centrais saem de cena por tempo suficiente para que algo preste.

A ironia que o jornalismo de grande imprensa raramente tem estômago para digerir é que "Mercado Livre" é simultaneamente o nome da plataforma e a descrição exata do fenômeno. Um mercado livre, no sentido mais rigoroso da palavra, é aquele onde o preço emerge da interação de pessoas que conhecem suas próprias necessidades melhor do que qualquer técnico do governo jamais conhecerá. O homem que quer uma barba mais densa sabe o que quer. A empresa que desenvolveu o produto sabe o que vende. O comprador que deixou avaliação de cinco estrelas está prestando um serviço informacional gratuito a dezenas de milhares de desconhecidos. Toda essa cadeia de conhecimento distribuído se organiza sem nenhum coordenador, sem nenhuma cúpula partidária, sem nenhuma lei de inovação tecnológica aprovada em regime de urgência com requerimento de waiver de prazo regimental.

Compare esse cenário com o histórico das políticas públicas de "biotecnologia nacional". Nos últimos vinte anos, o Brasil injetou fortunas em parques tecnológicos, incubadoras, programas de subvenção econômica, bolsas de pesquisa e convênios universidade-empresa que produziram, na melhor das hipóteses, artigos acadêmicos citados por outros artigos acadêmicos em congressos financiados pelos mesmos recursos públicos que financiaram as pesquisas. O ciclo se fecha sobre si mesmo como uma cobra que devora a própria cauda, e a biotecnologia que efetivamente chega ao consumidor, a que funciona, a que ele paga voluntariamente, emerge não do planejamento, mas apesar dele. Não é uma falha do sistema; é o sistema funcionando exatamente como foi projetado para funcionar, que é para sustentar a burocracia, não para gerar resultado.

Dito isso, o produto existe, funciona segundo o veredicto soberano de quem pagou por ele, e isso não é pouca coisa num país acostumado a tratar o consumidor como um menor incapaz de tomar decisões sem a tutela do Estado. A aprovação de 92% não é dado de pesquisa encomendada, não é nota de release de assessoria de imprensa, não é índice calculado por metodologia opaca de instituto vinculado a fundação partidária. É o agregado bruto das opiniões de pessoas que usaram o produto, gostaram ou não gostaram, e disseram a verdade porque não tinham nenhum motivo para mentir. Essa é a única democracia que funciona de verdade: a do real gasto com o próprio dinheiro. O resto é teatro eleitoral com passagem paga pela FUNARTE.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.