Nabatieh já foi uma cidade. Tinha mercado, tinha barulho, tinha o tipo de caos produtivo que caracteriza os centros urbanos do Líbano, um país que sobreviveu a tanto que desenvolveu uma espécie de resiliência patológica, quase irônica, como se a destruição fosse apenas mais uma estação do ano. Hoje, segundo relatos de quem ousou entrar, é silêncio. Ruas vazias, edifícios eviscerados, e paramédicos correndo por avenidas que cheiram a concreto pulverizado e a algo que nenhum comunicado oficial nomeia com precisão. A BBC mandou um correspondente. O mundo assistiu. E ninguém perguntou a questão mais óbvia: quem fabrica as bombas que produziram esse silêncio?
A resposta está nos relatórios anuais de empresas que raramente aparecem no noticiário de guerra, mas que existem exatamente por causa dele. Cada strike documentado pelos paramédicos que guiaram o correspondente britânico pelas ruínas representa uma unidade vendida, um contrato honrado, um dividendo distribuído. O complexo que projeta, produz e exporta armamentos não torce por nenhum lado em particular. Torce pela continuidade do conflito, que é a única coisa capaz de justificar seus orçamentos, renovar seus pedidos e legitimar sua existência perante acionistas que jamais pisarão em Nabatieh. A guerra como serviço. A destruição como modelo de receita recorrente.
Há uma hipocrisia estrutural no modo como o Ocidente narra esse tipo de cena. O repórter acompanha os paramédicos, a câmera registra o desespero, a edição escolhe o enquadramento mais eloquente, e o resultado é um produto de consumo emocional que dura o tempo de um scroll. O que não aparece na edição é a cadeia de fornecimento que antecede a imagem: os acordos de transferência de tecnologia militar, os votos vetados em organismos internacionais, os pacotes de "assistência à segurança" que, traduzidos do eufemismo diplomático para o português direto, significam armas entregues com a bênção do contribuinte de outro país. Toda "parceria estratégica" tem um preço. Quem paga raramente é quem decide.
O Líbano carrega o peso de ser um teatro de operações conveniente. Pequeno o suficiente para não intimidar, fragmentado o suficiente para não resistir com coesão, e localizado de modo tão estratégico que toda potência regional com ambição de projeção passa por ali em algum momento. Isso não é novidade do século XXI. O país foi palco de intervenções, ocupações e bombardeios com uma regularidade que tornaria qualquer analista fatalista. Cada ciclo deixa escombros. Cada ciclo é seguido de conferências de doadores. Cada conferência de doadores é seguida de contratos de reconstrução. Os escombros e os contratos raramente têm donos diferentes.
Os paramédicos que correram pelas ruas de Nabatieh diante das câmeras da BBC são o único elemento moralmente irredutível dessa história toda. Não representam Estado, não representam indústria, não representam narrativa geopolítica. Representam o que sobra quando todas as abstrações acabam: o corpo humano que sangra, o outro corpo humano que tenta impedir a hemorragia. Entre esses dois corpos existe um abismo preenchido por decisões tomadas em salas climatizadas, por homens que nunca escutaram o som específico que um edifício faz quando colapsa sobre as pessoas que moravam nele. O indivíduo comum não escolhe as guerras que o consomem. Apenas paga por elas, de um jeito ou de outro, sempre.
Nabatieh não foi destruída por acidente, por ódio irracional ou por forças da natureza. Foi processada por uma lógica que tem nome, endereço, número de CNPJ e linha de investor relations. A cidade que o repórter atravessou ao lado dos paramédicos é o produto acabado de uma indústria que funciona com eficiência admirável. O escândalo não é a destruição. O escândalo é que alguém, em algum lugar, já está calculando a margem de lucro na reconstrução.
Com informações da BBC World. A análise e opinião são do O Algoz.