O barril do Brent estourou a barreira dos 105 dólares na segunda-feira, e a engrenagem funcionou exatamente como deveria. Bastou Washington torcer o nariz para a resposta iraniana à proposta de paz, bastou Tel Aviv soltar a frase ritual de que o conflito segue em curso, e o mercado de futuros entendeu o recado antes mesmo de o pregão aquecer. Não há mistério nenhum no roteiro: existe uma indústria global cujos resultados trimestrais dependem da manutenção precisa desta temperatura de tensão, nem fria o bastante para murchar o prêmio de risco, nem quente o bastante para colapsar a demanda. O Oriente Médio é o termostato dessa indústria, e há décadas alguém muito competente segura o botão.
Convém olhar quem aplaude o tarifário do medo. As majors do petróleo, que viam suas margens espremidas pela transição energética e pelo barril barato, recuperam em semanas o que perderam em anos. As tesourarias dos fundos soberanos do Golfo, que financiam tanto a diplomacia americana quanto o lobby de Londres, voltam a respirar com a alegria de sempre. Os fabricantes de mísseis interceptadores, drones de reconhecimento e munição guiada vivem o melhor momento da década, com encomendas plurianuais blindadas contra qualquer surto de bom senso. E os bancos de investimento, esses sacerdotes silenciosos que estruturam tanto a dívida da reconstrução quanto o hedge do conflito, ganham nas duas pontas, como sempre ganharam desde que o Suez virou metáfora.
A narrativa oficial pede que o cidadão acredite na novela das motivações nobres. Está em jogo a paz regional, a contenção do programa nuclear, a defesa de aliados, a estabilidade do sistema. Bonito, comovente, e absolutamente irrelevante diante das planilhas. Recusar uma proposta de paz, qualquer proposta, é decisão que tem custo zero para quem decide e custo infinito para quem não foi consultado. O presidente americano não paga o galão de gasolina que subirá no posto de Ohio, não enterra o filho que será mobilizado, não recebe o caixão que voltará dobrado numa bandeira. A diplomacia, nesse arranjo, virou o departamento de marketing da indústria bélica, encarregada de produzir o pretexto enquanto a linha de montagem trabalha em três turnos.
A história fornece o manual sem precisar de rodapé. Toda vez que uma janela de negociação se abriu no Golfo nas últimas quatro décadas, ela foi fechada por um incidente conveniente, um voo derrubado, um navio atacado, um cientista assassinado, uma declaração intempestiva no momento exato. O padrão é tão repetitivo que beira o tédio. A paz é ruim para o negócio porque a paz comoditiza o petróleo, derruba o prêmio de risco geopolítico, esvazia o orçamento de defesa e expõe os contratos plurianuais a auditorias inconvenientes. Conflito gerenciado, ao contrário, é a galinha dos ovos de ouro mais previsível já inventada, porque sustenta a inflação dos ativos certos sem destruir o mercado consumidor que paga a conta no fim.
E a conta, como sempre, chega no endereço do indivíduo comum. Chega no frentista brasileiro que verá o diesel reajustado por uma decisão tomada num gabinete a dez mil quilômetros. Chega no motorista de aplicativo iraniano cuja moeda derreteu mais um pouco com a nova rodada de sanções. Chega no jovem israelense convocado para uma reserva sem prazo e no jovem libanês que perdeu o emprego porque o turismo evaporou. Chega no contribuinte americano que financia, via imposto presente e dívida futura, o subsídio cruzado mais lucrativo da história moderna, aquele que transfere riqueza da classe média global para o acionista de uma dúzia de empresas listadas em Nova York. O barril a 105 não é número de tela de Bloomberg, é uma fatura distribuída em silêncio entre bilhões de pessoas que nunca votaram nesse arranjo.
Resta a pergunta que ninguém faz no telejornal das oito. Se a paz fosse realmente desejada, ela seria assinada num fim de semana, porque as condições materiais para ela existem desde sempre. O que falta não é diplomacia, é incentivo. Enquanto recusar uma proposta render mais que aceitá-la, enquanto cada negativa empurrar o Brent para cima e o índice das defesa para a estratosfera, a paz continuará sendo uma ameaça que precisa ser administrada, jamais um objetivo a ser perseguido. O cinismo não está na análise; está no contrato.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.