Sábado, Washington avisa que Steve Witkoff e Jared Kushner não embarcam mais para o Paquistão. A reunião com os iranianos, vendida como gesto de boa vontade, evapora num parágrafo de comunicado. Em poucas horas o Brent cruza os 106 dólares e os pregões em Houston, Calgary e Aberdeen ganham um sorriso discreto. Cada dólar a mais no barril significa centenas de milhões em receita extra para as petroleiras americanas, canadenses e norueguesas. O luto diplomático tem dividendo trimestral, e o dividendo já foi precificado.

A coreografia é antiga, quase litúrgica. Há sempre uma negociação prestes a acontecer, um envoy presidencial com pasta de couro, uma cidade muçulmana servindo de palco neutro, e há sempre, na véspera, um cancelamento providencial. O roteiro foi rodado em 1953 quando derrubaram Mossadegh para devolver o petróleo persa às majors anglo-americanas, foi rodado em 1979 quando o embargo elevou o barril ao patamar que pagaria a expansão saudita, foi rodado em 2003 quando armas de destruição em massa que nunca existiram justificaram o controle de campos em Basra. A diferença hoje é que os figurantes trocaram o uniforme militar pelo terno de genro presidencial, mas o resultado contábil é idêntico.

Convém olhar o que se move por baixo da manchete. Toda vez que uma negociação com Teerã trava, sobe o prêmio de risco no Estreito de Ormuz, encarece o frete marítimo, dispara o seguro de cascos pelo Lloyd's de Londres, e o consumidor europeu paga gasolina trinta por cento mais cara para que um fundo soberano do Golfo possa comprar mais um pedaço de Manhattan. Os perdedores são sempre os mesmos: o motorista de aplicativo em São Paulo, o caminhoneiro em Lyon, o pequeno industrial em Milão que já não consegue absorver o custo do diesel. Os ganhadores também são sempre os mesmos, e seus nomes constam nos relatórios anuais que ninguém lê.

A narrativa oficial dirá que o regime dos aiatolás é intransigente, que o programa nuclear avança, que a janela diplomática está se fechando. Tudo isso pode até ser verdade do ponto de vista factual e ainda assim ser irrelevante. Porque a pergunta honesta não é se o Irã merece sanções, e sim quem assina o cheque das sanções. Bloqueio econômico é ato de guerra travestido de planilha, mata mais gente do que bombardeio convencional, e nunca, em nenhum lugar do planeta, derrubou um regime. Derrubou padaria, derrubou hospital pediátrico, derrubou aposentado que precisava de insulina importada. O ditador continua vivo, gordo e televisionado.

Há ainda o detalhe geopolítico que ninguém quer contar para o eleitor médio. Cada barril que o Irã não exporta para o Ocidente vai parar em refinarias chinesas com desconto de vinte por cento, financiando exatamente o adversário que Washington jura combater na próxima década. A sanção contra Teerã é, na prática, subsídio a Pequim. O contribuinte americano paga o porta-aviões que patrulha Ormuz para garantir que o petróleo persa siga, mais barato, alimentando a indústria que vai competir com a sua. É um daqueles esquemas tão absurdos que só funcionam porque a maioria nunca para para somar as contas.

No fim, o cancelamento da viagem a Islamabad não é fracasso da diplomacia, é seu sucesso íntimo. Reunião que dá certo derruba o barril, fecha contrato de armamento, esvazia o orçamento de defesa do ano seguinte. Reunião que dá errado, ou melhor, reunião que nunca acontece, mantém viva a indústria do medo, sustenta o lobby, justifica a próxima fragata, alimenta a próxima campanha eleitoral. A paz é um péssimo modelo de negócios, e ninguém em Washington está disposto a falir por causa dela. O cidadão comum, esse, continua pagando a conta no posto de gasolina, sem nunca ter sido consultado sobre em qual guerra estava financiando o jantar de hoje.

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.