A Bulgária acaba de transformar o exercício democrático numa espécie de TOC nacional. Oito eleições parlamentares em cinco anos, um ritmo que faria corar qualquer república bananeira latino-americana e que desmente, com a brutalidade dos fatos, a mitologia segundo a qual a adesão à União Europeia e à OTAN traria estabilidade institucional aos antigos satélites soviéticos. Cada ida às urnas custa cerca de cem milhões de levs aos cofres públicos, dinheiro extraído à força do trabalhador búlgaro, cujo salário médio mal cobre o aluguel em Sófia, para sustentar um teatro eleitoral cujo roteiro já se conhece de cor: coalizão montada no grito, governo que não dura seis meses, escândalo de corrupção convenientemente vazado, protesto orquestrado, queda, nova eleição. Repeat.

A narrativa oficial fala em crise política, em polarização, em dificuldade de formar maiorias. É uma descrição tecnicamente correta e analiticamente inútil, do tipo que descreve o sintoma e ignora a doença. A doença tem nome e endereço: desde a transição dos anos noventa, a Bulgária foi loteada entre um punhado de oligarcas que controlam setores inteiros da economia, do tabaco ao gás natural, da construção civil aos bancos, e que financiam partidos rotativos para garantir que, não importa quem vença, quem perca seja sempre o mesmo contribuinte. A democracia búlgara é um condomínio fechado, e as eleições são a assembleia anual onde se discute apenas quem administrará o caixa comum.

Siga o dinheiro e a paisagem fica nítida. A Bulgária é corredor estratégico para o gás que entra e sai do Mar Negro, ponto de passagem do TurkStream, território que Bruxelas cobiça como barreira logística contra Moscou e que Washington enxerga como plataforma avançada do flanco oriental da OTAN. Cada governo derrubado nos últimos anos caiu exatamente quando começou a bater cabeça com um desses interesses. O premiê que questionou contratos de defesa com fornecedores americanos, caiu. O que hesitou em repassar munição a Kiev, caiu. O que tentou renegociar tarifas de trânsito energético, caiu. Coincidência é uma hipótese estatística, não uma teoria política.

Enquanto isso, a conta humana se empilha silenciosa. A Bulgária perdeu mais de dois milhões de habitantes desde 1990, maior colapso demográfico da Europa em tempos de paz, e continua sangrando população jovem que foge da estagnação crônica em direção à Alemanha, à Espanha, ao Reino Unido. A inflação corrói aposentadorias miseráveis, o sistema de saúde público se degrada a cada orçamento emergencial, e a promessa de adesão ao euro, prometida para janeiro próximo, chega como consolo burocrático a quem já perdeu duas décadas de vida produtiva esperando o milagre do desenvolvimento que nunca veio. O búlgaro comum não vota oito vezes em cinco anos porque acredita na democracia; vota porque o mandaram votar, e porque ainda restou em algum canto da alma a ilusão irracional de que desta vez talvez seja diferente.

A história europeia conhece esse padrão desde os tempos das repúblicas italianas do Renascimento, onde cada facção derrubava a anterior em nome do povo e governava em nome dos banqueiros. Mudam os figurinos, mudam as bandeiras, não muda a engrenagem. O que se chama instabilidade política na Bulgária contemporânea é, na verdade, uma forma perversa de estabilidade: a estabilidade do saque permanente, protegida pelo ruído das eleições frequentes que dão ao eleitor a sensação catártica de estar fazendo alguma coisa. É um mecanismo engenhoso, preciso, quase elegante na sua crueldade. Fábrica de legitimidade movida a cansaço cívico.

No dia seguinte à apuração, haverá declarações sobre mandato popular, negociações de coalizão, promessas de reforma estrutural, aperto de mãos diante de câmeras e cúpulas em Bruxelas felicitando o novo premiê pela vitória da estabilidade democrática. Seis meses depois, no máximo oito, cairá mais um governo e os búlgaros voltarão às urnas pela nona vez. Quem vende as armas continuará vendendo, quem controla o gás continuará controlando, quem lava dinheiro pela Europa do Leste continuará lavando. O único que não aparece nas fotos oficiais é o cidadão anônimo que paga a festa toda, e que jamais foi convidado para dançar.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.