Domingo de sol em Brasília, a Esplanada dos Ministérios bloqueada, quatro circuitos demarcados, kits esportivos distribuídos, estrutura montada, segurança reforçada, e no meio de tudo isso o presidente da Câmara dando o tiro de largada para celebrar os duzentos anos da casa legislativa. A cena tem aquele charme particular de regime que se autoparabeniza: o financiador involuntário do espetáculo corre, sem saber, em sentido contrário ao dos atletas. Os deputados festejam dois séculos de instituição; o cidadão festeja não ter sido atropelado pela conta.
Vale a pena demorar um instante naquilo que parece banal. Uma corrida de rua custa dinheiro. Estrutura de largada, cronometragem, medalhas, camisetas, água, frutas, ambulâncias, policiamento, palco, som, divulgação, assessoria de imprensa, fotógrafos oficiais, brindes para autoridades. Tudo isso some sob o rótulo simpático de evento comemorativo, como se o dinheiro brotasse do chão da Esplanada junto com a grama. Não brota. Sai do bolso do sujeito que estava em casa naquele domingo pagando boleto, daquele que acordou cedo para trabalhar de aplicativo, daquele que nunca pisou em Brasília e jamais pisará. A festa é deles; o ingresso é seu, e foi cobrado na nota fiscal do pão.
Duzentos anos de Câmara são, convenhamos, duzentos anos de aperfeiçoamento de uma máquina que tem como atividade-fim transformar a liberdade alheia em texto jurídico. A cada legislatura, novas leis, novos tributos, novas obrigações acessórias, novos conselhos, novas exigências, novas penalidades. O brasileiro médio carrega nas costas uma biblioteca normativa que nenhum jurista vivo conseguiria ler inteira antes de morrer. Comemorar isso correndo na Esplanada tem a graça involuntária de um carcereiro celebrando aniversário de cadeia com churrasco para os colegas, enquanto os presos lavam a louça. A solenidade é tão grande que chega a ser cômica.
Repare na lógica do arranjo, porque ela é límpida. Quem decide o evento é a Câmara. Quem aprova o orçamento é a Câmara. Quem fiscaliza o gasto é, em última instância, a própria Câmara. Quem corre, sorri para a câmera e recebe medalha, também é da Câmara, com seus convidados, seus assessores e suas comitivas. O contribuinte aparece em apenas um momento dessa coreografia, e é justamente o momento que ninguém fotografa: o do pagamento. Há aqui aquela velha sabedoria de quem entendeu cedo que a melhor festa é a paga com o cartão dos outros, sobretudo quando os outros não têm como contestar a fatura.
Diz-se que é só uma corrida, só um evento simbólico, só uma comemoração. É exatamente assim que funciona. Nunca é o gasto único que quebra o cofre; é a soma silenciosa de mil gastos pequenos, cada um defendido como insignificante, cada um justificado pela tradição, pelo simbolismo, pelo engajamento, pela aproximação com a sociedade. Quando se empilha duzentos anos de pequenos simbolismos, o resultado é um Estado que consome quase metade de tudo que se produz no país e ainda assim aparece, de tênis novo, pedindo paciência ao pagador para mais uma volta na pista. A pista, registre-se, é a Esplanada que o pagador construiu e que ele só pode atravessar quando os donos da casa permitem.
No fim, a pergunta que importa é sempre a mesma, e ela não admite resposta lateral. Quem pagou pela festa de duzentos anos? O sujeito que não foi convidado, que não correu, que não ganhou medalha, que não tirou foto com o presidente da Câmara e que provavelmente nem ficou sabendo que houve corrida. Quem recebeu? A classe que há dois séculos descobriu que governar é, antes de tudo, dominar a arte da comemoração financiada por terceiros. Da próxima vez que ouvir falar em evento institucional, faça o exercício simples de procurar, na multidão sorridente, o rosto do contribuinte. Não vai achar. Ele está em casa, correndo atrás do mês que não fecha.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.