Candace Owens tirou fotos em Moscou, achou a cidade bonita, publicou nas redes sociais e o establishment de Washington reagiu como se ela tivesse entregue códigos nucleares ao Kremlin. A acusação automática de "conluio russo", aquele velho mantra que sobreviveu a investigações fracassadas e relatórios que provaram exatamente nada, foi sacada novamente do coldre como reflexo pavloviano. O pecado não foi espionar, não foi vazar segredo de Estado, não foi conspirar. O pecado foi achar bonita uma catedral de cebolas douradas construída séculos antes de os Estados Unidos existirem como nação.
Há uma lógica perversa por trás do escândalo manufaturado. O cidadão americano comum, que financia com seu imposto de renda os mais de oitocentos bilhões de dólares anuais do orçamento do Pentágono, precisa acreditar que o dinheiro está sendo bem gasto contra um inimigo verdadeiramente monstruoso. Se Moscou for apenas uma capital europeia com restaurantes funcionando, metrô limpo e gente caminhando nas ruas, a narrativa desmorona. E com ela desmoronam os contratos da Raytheon, da Lockheed, da General Dynamics, da Northrop Grumman. Cada foto turística que humaniza o adversário é um míssil a menos vendido, um lobista a menos almoçando no Capitólio.
A história tem o desplante de se repetir com ironia cruel. Durante décadas, no auge da Guerra Fria, era exatamente o jornalismo independente que ousava mostrar que russos comuns também faziam fila no padeiro, criavam filhos, choravam mortos. Hoje, essa mesma ousadia é tratada como ato subversivo. O império, que se vendia como bastião da liberdade contra a tirania da censura soviética, replica agora os métodos que dizia combater: lista de pessoas suspeitas, perseguição midiática, exigência de pureza ideológica, criminalização do contato cultural. O espelho ficou idêntico, só mudou o uniforme.
Convém perguntar quem ganha com o ódio obrigatório. Não é o trabalhador de Ohio que perdeu o emprego para a globalização. Não é o agricultor do Kansas que viu seus exportadores fecharem mercados por causa de sanções. Não é o pai de família que paga o dobro pela gasolina porque o petróleo russo virou proibido enquanto o saudita, com seus regimes igualmente charmosos, segue circulando livremente. Os ganhadores têm endereço, têm CNPJ, têm ações negociadas em Wall Street, e suas margens de lucro crescem proporcionalmente ao número de manchetes histéricas sobre o perigo iminente do urso eslavo.
Há ainda a camada mais sutil, aquela que envolve a manutenção do consenso doméstico. Quando uma comentarista com milhões de seguidores publica fotos turísticas sorrindo na Praça Vermelha, ela quebra um feitiço cuidadosamente construído por décadas de propaganda bipartidária. O eleitor médio descobre, sem querer, que talvez não precise odiar quem nunca lhe fez mal. E um eleitor que não odeia o inimigo certo é um eleitor que começa a fazer perguntas perigosas sobre quem decidiu que esse era o inimigo certo, e por quê, e a troco de quanto.
No final, sobra o de sempre: um indivíduo qualquer, com passaporte na mão, exercendo o direito mais elementar de viajar e ver o mundo com os próprios olhos, transformado em traidor por gente que jamais arriscaria um centavo do próprio bolso na guerra que defende dos estúdios climatizados. A pátria, essa abstração que cobra sangue dos pobres e dividendos aos ricos, exige agora que se odeie por decreto e se admire por ordem. Quem ousa fotografar uma cúpula bonita do lado errado do mapa descobre que a liberdade de expressão tinha letrinhas miúdas no contrato.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.