A Federação Ganesa de Futebol fez o que federações africanas fazem com a regularidade de um relógio suíço: demitiu o treinador local e foi buscar um nome estrangeiro com currículo vistoso e cachê proporcional. Otto Addo, que tinha a desvantagem de ser ganês treinando Gana, foi substituído pelo português Carlos Queiroz, cuja principal credencial parece ser a disposição permanente de aceitar seleções em crise desde que o depósito caia antes do primeiro treino. O roteiro é tão previsível que já deveria ter número de patente: seleção africana decepciona, técnico nacional é guilhotinado em praça pública, consultor europeu desembarca com PowerPoint debaixo do braço e contrato blindado no bolso. Os jogadores continuam os mesmos. A estrutura continua a mesma. O que muda é o destino da transferência bancária.

Queiroz não é nenhum desconhecido nesse circuito. Passou por Portugal, África do Sul, Irã, Egito, Colômbia, sempre com o mesmo padrão: chega como salvador, entrega resultados medianos, sai pela porta dos fundos e reaparece seis meses depois em outra seleção desesperada. É o tipo perfeito de profissional que a indústria do futebol internacional adora, porque sua mera contratação já gera manchetes, movimenta agentes, justifica comissões e produz a ilusão de que algo mudou. Nada mudou. Gana continua sem centro de treinamento de primeiro nível, sem liga doméstica competitiva, sem a menor capacidade de reter seus talentos juvenis antes que clubes europeus os contratem por valores que fariam um olheiro rir em qualquer outro mercado. Mas agora tem um português no comando, e isso, aparentemente, basta para que a FIFA considere o problema resolvido.

O verdadeiro negócio nunca foi o futebol. A Copa do Mundo é o maior espetáculo de transferência de renda que o esporte já inventou: países pobres investem fortunas em infraestrutura que não possuem, pagam taxas de inscrição que não podem bancar, financiam delegações que custam mais do que hospitais inteiros, tudo para participar de um torneio cujos lucros de transmissão, patrocínio e merchandising fluem quase integralmente para Zurique e para os conglomerados de mídia que compraram os direitos décadas atrás. Gana vai à Copa e o ganês médio assiste pelo celular de um vizinho, orgulhoso de uma seleção cujos jogadores ele nunca verá jogar ao vivo no próprio país. O orgulho nacional é a moeda mais barata que existe, e as federações sabem cunhá-la com maestria.

Há algo de profundamente colonial nessa dinâmica que ninguém ousa nomear. O futebol africano produz talento em escala industrial, exporta esse talento a preço de banana para academias europeias, e depois precisa importar conhecimento tático do mesmo continente que drenou seus melhores jogadores. É como se uma fazenda de café vendesse seus grãos a centavos e depois comprasse cappuccino importado a peso de ouro, celebrando a sofisticação da bebida que volta embalada. A federação ganesa não contratou Queiroz porque ele é melhor que qualquer treinador disponível no continente; contratou porque o sistema foi desenhado para que a credibilidade venha sempre de fora, validada por passaportes europeus e currículos em clubes cujos nomes soam bem em coletivas de imprensa.

Otto Addo, o demitido, carrega a culpa conveniente de quem estava no cargo quando os resultados não vieram. Ninguém pergunta por que os resultados não vieram. Ninguém investiga quanto do orçamento da federação foi para desenvolvimento de base e quanto foi para diárias de dirigentes em congressos da FIFA em hotéis cinco estrelas. Ninguém questiona o modelo que transforma seleções nacionais em vitrines descartáveis onde treinadores passam como turistas e dirigentes permanecem como proprietários. A seleção de Gana não precisa de um novo treinador; precisa de uma estrutura que não exista apenas para servir de correia de transmissão entre o talento bruto das ruas de Acra e os lucros líquidos de clubes em Londres, Turim e Munique. Mas estrutura não dá manchete, não gera comissão de agente e não enche a sala de imprensa. Treinador português, sim. E enquanto houver coletivas lotadas e contratos assinados, ninguém vai perguntar quem, de fato, está pagando essa conta.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.