Na quinta-feira, na zona leste de São Paulo, a garagem da família de um dos funkeiros mais famosos do país virou tocha. O incêndio começou, segundo as primeiras informações, em uma moto elétrica estacionada. O pai de MC Gui sofreu queimaduras. A casa, danificada. O noticiário, brevemente comovido. E então, como sempre, o ciclo segue: a comoção de dois dias, o esquecimento de um mês, e a pergunta que ninguém faz permanece sepultada sob a avalanche de notas de solidariedade.

A pergunta é simples e devastadora: quem empurrou a moto elétrica para dentro da garagem desse homem? Não no sentido literal, claro, mas no sentido que importa, o econômico e o político. Há anos, uma constelação de incentivos fiscais, subsídios disfarçados de política pública e narrativa climática blindada contra qualquer questionamento empurra o consumidor brasileiro em direção às baterias de lítio. Isenções de IPI, campanhas governamentais, crédito subsidiado, celebridades patrocinadas para posar ao lado de veículos elétricos como se fossem a encarnação do progresso. E ninguém, absolutamente ninguém nessa cadeia de entusiastas, vai pagar a conta do hospital onde o pai do MC Gui está sendo tratado. Essa conta é pessoal. O risco foi socializado na propaganda; o prejuízo foi privatizado na carne do homem.

Existe uma ironia de proporções históricas no fato de que a tecnologia vendida como "limpa" e "segura" seja capaz de incendiar uma residência inteira a partir de uma falha térmica que qualquer engenheiro de baterias conhece bem. Células de lítio em ignição não se apagam com água, resistem ao esforço dos bombeiros e produzem gases tóxicos enquanto queimam. Isso não é segredo de laboratório, é manual técnico disponível publicamente. Mas manuais técnicos não vendem agendas, e agendas não se vendem com advertências. Então o risco fica nas letras miúdas, e as letras miúdas ficam na garagem, e a garagem pega fogo.

Há algo de profundamente revelador na geografia dessa tragédia. A zona leste de São Paulo, onde a família do artista ainda mora, é o Brasil que existe entre um show e outro, entre uma postagem de Instagram e outra, entre um contrato milionário e a realidade de que a maioria das famílias brasileiras, mesmo aquelas que orbitam ao redor de alguma fama, ainda vive em casas comuns, com garagens comuns, com motos compradas no crediário e seguros que cobrem menos do que prometem. Não há nada de errado nisso, pelo contrário. Mas é precisamente esse Brasil, o de carne e osso e garagem, que absorve os riscos das experiências que as classes dirigentes concebem em seus seminários sobre sustentabilidade.

O Estado não vai ressarcir ninguém. Nunca ressarcia. Sua função histórica não é proteger o cidadão das consequências das políticas que ele mesmo impõe, mas sim apresentar essas consequências como acidentes inevitáveis, fatalidades, eventos isolados sem relação com o desenho institucional que os tornou mais prováveis. A moto elétrica pegou fogo? Tragédia pessoal. O incentivo fiscal que barateou a moto e acelerou sua adoção massiva antes que a infraestrutura de segurança acompanhasse? Política pública de sucesso. Essa é a gramática do poder, e ela não muda de governo para governo porque não depende de partido, depende da lógica imanente de qualquer estrutura que detém o monopólio da força e da narrativa simultaneamente.

Votos de rápida recuperação ao pai de MC Gui. Que os danos sejam menores do que parecem e que a casa seja reconstruída depressa. Mas que ninguém, depois de ler essa história, feche o jornal achando que foi só azar. Azar é raio. Isso tem autor, tem cadeia de causas, tem interessados que lucraram com cada moto elétrica vendida e que dormirão tranquilos esta noite, sem queimaduras, sem dívida de hospital, sem garagem destruída. Felizes e subsidiados.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.