Uma moto elétrica pegou fogo numa garagem da Zona Leste de São Paulo e quase levou junto uma família inteira. O pai de MC Gui saiu com queimaduras. A casa foi consumida pelas chamas. O incêndio começou, segundo tudo indica, no próprio veículo, estacionado onde veículos costumam ficar: dentro de casa, perto de tudo que uma família construiu ao longo de anos. Não há mistério no fato em si. O mistério, o verdadeiro escândalo, está no silêncio confortável com que a imprensa noticia o episódio como curiosidade de coluna social, sem conectar o ponto óbvio que está ali, fumegando na foto.
Baterias de lítio explodem. Não é teoria conspiratória, não é negacionismo tecnológico, não é fobia de progresso. É física. É química. É o manual técnico que ninguém lê porque a narrativa do veículo limpo, do futuro sustentável, da transição energética justa não comporta notas de rodapé sobre incêndios de difícil controle, gases tóxicos liberados na combustão e a impossibilidade prática de apagar essas chamas com os extintores que qualquer pessoa comum tem em casa. Enquanto o poder público empurra incentivos fiscais, isenções, campanhas de consciência e metas de eletrificação da frota urbana, quem arca com o risco concreto é exatamente a pessoa que guarda a moto no único espaço disponível, que é dentro da própria residência. A periferia não tem garagem separada, não tem área técnica ventilada, não tem segurança privada para monitorar o estado de carga durante a madrugada. Tem a sala de jantar do lado.
Toda vez que um Estado decide qual tecnologia a população deve adotar, quem paga o preço do experimento não é o burocrata que assinou o decreto. Ao longo da história, esse padrão se repete com uma regularidade que deveria envergonhar qualquer pessoa com dois dedos de testa. Os romanos tiveram sua versão, os mercantilistas tiveram a deles, e nós temos a nossa, batizada de agenda climática e executada com o mesmo entusiasmo voluntarista de quem nunca dormiu num cômodo úmido com uma bateria de 72 volts carregando do lado. O subsidio público que torna a moto elétrica acessível ao trabalhador da Zona Leste é, na prática, uma transferência forçada de risco. O dinheiro do incentivo sai do contribuinte. O risco fica com quem compra. A glória política fica com quem anunciou a política. É uma divisão de trabalho que qualquer capanga de esquema provincial reconheceria sem dificuldade.
Ninguém vai responsabilizar ninguém por isso. A família vai consertar o que puder, o pai vai tratar as queimaduras, a vida segue. MC Gui vai postar alguma coisa emocionante nas redes, a imprensa vai emocionar junto por quarenta e oito horas e depois o assunto some. O fabricante da moto não será chamado a nenhuma audiência pública. O vereador que celebrou a eletrificação da frota não será lembrado. A norma técnica brasileira de armazenamento de baterias em residências, caso exista em alguma gaveta, continuará na gaveta. É assim que funciona: o Estado cria o risco, distribui o risco entre os que têm menos capacidade de absorvê-lo, e quando o risco se concretiza em fumaça e queimadura, o Estado está em outro lugar, inaugurando outra coisa.
O episódio da Zona Leste não é uma tragédia isolada. É uma amostra do que acontece quando a engenharia social encontra a realidade da habitação popular. Quem mora num sobrado de quarenta metros quadrados e guarda a única moto que tem dentro de casa não está sendo irresponsável. Está sendo pobre num país onde a política pública foi desenhada por pessoas que nunca precisaram tomar essa decisão. A consequência concreta desse desencontro tem nome, tem endereço e, neste caso, tem o rosto de um senhor com queimaduras nos braços, parado na calçada, olhando para o que sobrou da casa onde criou o filho.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.