Há algo de quase cômico na manchete que sai do Iêmen nesta semana, não fosse trágica. Os tecnocratas monetários anunciam, com o orgulho peculiar dos que nunca viveram o que decretam, que o rial iemenita está "estabilizado". Na prática, porém, o iemenita comum entra numa casa de câmbio em Aden e ouve do atendente que não há notas suficientes, que o limite diário foi reduzido outra vez, que volte amanhã, talvez depois de amanhã, quem sabe semana que vem. Estabilidade cambial sem liquidez é como prometer água potável num deserto apontando para o mapa de um rio seco. O preço oficial existe, a moeda oficial existe, só não existe a moeda na mão de quem precisa comprar pão.

A fratura monetária do país conta uma história que os comunicados oficiais fingem não enxergar. Há dois bancos centrais operando em paralelo, um em Aden sob o governo reconhecido internacionalmente, outro em Sanaa sob controle houthi, cada um imprimindo sua versão da realidade, cada um proibindo as cédulas do rival, cada um transformando o simples ato de atravessar uma estrada interna num câmbio internacional. O comerciante que recebe pagamento numa região e precisa comprar em outra paga ágio, paga corretor, paga pedágio informal, paga o preço de um Estado partido que insiste em cobrar impostos como se fosse inteiro. Quem lucra com o caos? As casas de câmbio informais, os contrabandistas de divisas, os intermediários armados que cobram comissão para mover maços de papel entre territórios. É a velha lei dos conflitos prolongados: toda disfunção oficial alimenta uma eficiência paralela, e essa eficiência paralela tem dono.

E a conta da guerra, como sempre, não está onde os microfones apontam. A coalizão saudita comprou armamento americano e britânico em volumes que fariam corar um império de outrora, bombardeou infraestrutura civil, hospitais, casamentos, ônibus escolares, e financiou o afundamento econômico de uma nação inteira com a cumplicidade silenciosa dos mesmos organismos multilaterais que agora emitem relatórios preocupados sobre "insegurança alimentar". Os fabricantes de mísseis faturaram, os bancos que processaram as transações faturaram, as consultorias que reconstroem o que foi destruído já protocolam propostas. Do outro lado, o apoio iraniano aos houthis mantém a fornalha acesa pelo custo módico de uma procuração regional. No meio, oito décadas depois do fim da era colonial, um povo inteiro descobre que a independência formal não o protegeu de servir como tabuleiro alheio.

A escassez de dinheiro vivo tem uma dimensão que os economistas de terno tendem a subestimar e que qualquer dona de casa iemenita explica em trinta segundos. Quando a cédula some, o poder se concentra. Quem tem acesso às poucas notas disponíveis dita preço, dita prazo, dita favor. O pequeno comerciante que vivia de giro rápido quebra. O trabalhador informal que recebia em dinheiro passa fome. O funcionário público, quando paga, recebe em moeda que ninguém quer aceitar do outro lado da linha de frente. Há um padrão histórico antigo nisso, repetido de Weimar a Caracas, de Zimbábue a Beirute: governos falidos descobrem que controlar a moeda é controlar a fila do pão, e controlar a fila do pão é a forma mais barata de controlar a revolta. Fome administrada é ferramenta política desde que existe política.

Os organismos internacionais, por sua vez, desempenham o ritual de sempre. Emitem apelos, lançam campanhas, convocam doadores, patrocinam conferências em hotéis de cinco estrelas onde se discute o sofrimento de quem não tem cinco reais. Parte do dinheiro arrecadado em nome do iemenita faminto evapora em salários de expatriados, consultorias, logística, relatórios de impacto, auditorias dos relatórios de impacto. O que sobra chega filtrado, atrasado, insuficiente, e ainda assim é celebrado em coletivas onde ninguém pergunta por que, depois de tantos bilhões injetados ao longo de uma década, o país continua pior do que começou. A resposta incômoda é que a indústria humanitária, como qualquer indústria, precisa da continuidade do seu insumo. E o insumo dela é a miséria.

No fim, o que se vê no Iêmen é a versão concentrada de uma lição que o mundo insiste em não aprender. Nenhuma guerra termina quando os canhões silenciam; ela continua no câmbio, na fila da padaria, no bolso vazio do pai que não tem como alimentar os filhos apesar de trabalhar. A moeda estabilizada nos gráficos é a mesma moeda que não aparece no caixa. O cidadão comum, esse personagem permanentemente ausente das negociações que decidem sua vida, paga a conta integral de uma disputa geopolítica que nunca foi sua. Os Estados declaram vitórias, os lobbies contabilizam lucros, os diplomatas brindam em Riade, Teerã, Washington e Londres. E o iemenita, cédula inexistente na mão, aprende que entre a estatística oficial e a fome real cabe um país inteiro.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.