Centenas de carros incendiados, vitrines estilhaçadas, confrontos com a polícia em plena Champs-Élysées. O motivo? Onze milionários correndo atrás de uma bola venceram outros onze milionários em Munique. A Paris que se autoproclama berço da civilização ocidental ofereceu ao mundo a imagem que melhor a define neste século: fumaça subindo dos Champs, um Peugeot capotado ardendo enquanto uma bandeira é agitada sobre as chamas. O troféu pertence ao clube comprado pelo fundo soberano do Catar, que canalizou bilhões de petrodólares para transformar um time medíocre em vitrine geopolítica. O carro queimado pertence a um pequeno comerciante que pagará a franquia do seguro e descobrirá, semanas depois, que o prêmio do próximo ano subiu trinta por cento.
Vale rastrear o dinheiro antes de rastrear a fumaça. O PSG é, há mais de uma década, instrumento de soft power de um emirado do Golfo que precisa lavar a imagem internacional enquanto vende gás liquefeito para a Europa órfã do gás russo. A UEFA, que finge regular o futebol europeu, fechou os olhos para o fair play financeiro porque também depende dos mesmos petrodólares em patrocínios, direitos televisivos e estádios na Arábia. A festa que incendiou Paris foi paga, em última instância, por consumidores europeus que viram a conta de luz triplicar desde 2022, financiando indiretamente o brinquedo esportivo de xeques que jamais pisaram no Parc des Princes.
A polícia francesa, equipada como exército de ocupação, gastou a noite disparando granadas de efeito moral contra adolescentes embriagados. A mesma polícia que, sob estado de emergência permanente desde 2015, recebeu poderes excepcionais para combater terrorismo e hoje os usa para escoltar caminhões de lixo e dispersar torcedores. Cada noite assim engorda o orçamento do Ministério do Interior, justifica a próxima compra de blindados urbanos, alimenta o ciclo virtuoso da burocracia da ordem pública. O Estado adora um motim contido: prova que ele é necessário, que o monopólio da violência precisa ser renovado, que os impostos da próxima primavera estão plenamente justificados.
Há um padrão histórico nisso, e ele não começou ontem. Roma distribuía pão e circo precisamente quando o império apodrecia por dentro, quando a moeda era envilecida e as legiões já não defendiam fronteira alguma. Bizâncio teve suas facções do hipódromo, azuis contra verdes, que incendiavam a cidade enquanto os impostos sufocavam a província. Sempre que uma civilização perde a capacidade de produzir sentido, ela terceiriza o sentido para o espetáculo, e quando o espetáculo acaba, sobra apenas a fúria de quem nunca soube o que estava celebrando. Paris não comemorou uma vitória esportiva, comemorou a anestesia de mais um sábado.
Os subúrbios que despejaram seus jovens na avenida não são acidentes. São produto de meio século de planejamento estatal habitacional, de subsídios mal calibrados, de uma máquina de assistencialismo que comprou paz social trocando-a por dependência permanente. O cidadão produtivo paga impostos confiscatórios para sustentar o aparato que, quando colapsa em uma noite de festa, lhe queima o automóvel na porta de casa. Recebe em troca discursos do prefeito sobre coesão republicana e a promessa de que, no próximo orçamento, mais milhões irão para programas de integração que jamais integram ninguém.
O Catar levantou um troféu, a UEFA contou seu lucro, a polícia justificou seu próximo aumento, o seguro reajustará suas apólices, o prefeito fará um pronunciamento solene. Resta o francês comum, aquele que acordou domingo de manhã para encontrar o que sobrou do seu Renault na calçada, perguntando-se por que celebrar exige sempre que alguém perca alguma coisa. A resposta é simples e ele não vai gostar dela: porque a festa nunca foi dele, e a conta sempre é.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.