O fato é prosaico e por isso devastador. Um chef ibérico decide que arroz não precisa nascer dentro de água fervente e sem graça, joga caldo na panela, acrescenta alho amassado e folha de louro, e a internet inteira reage como se ele tivesse decifrado a pedra de Roseta. A receita não tem mistério, não tem técnica de confraria, não exige equipamento caro. É literalmente trocar um líquido insosso por outro saboroso. E mesmo assim provocou um pequeno terremoto doméstico, porque revelou uma verdade incômoda sobre como cozinhamos, ou melhor, sobre como fomos ensinados a cozinhar no automático.
A pergunta certa não é o que o espanhol fez, é por que precisamos esperar um espanhol para fazer. A resposta está naquela engrenagem invisível que pega o sujeito desde a infância e instala no cérebro a noção de que existe um jeito certo, oficial, canônico, de executar tarefas triviais. Arroz se faz com água, ponto. Quem disse? A vovó disse, a embalagem do produto disse, o programa de televisão disse, e a soma dessas autoridades dispersas criou um dogma culinário que ninguém ousou questionar porque o custo de questionar parecia maior do que o benefício de obedecer. O resultado é uma população inteira comendo arroz medíocre por hábito, não por necessidade.
O interessante é seguir a trilha de quem se beneficia da padronização. A indústria alimentar adora o consumidor previsível, aquele que compra o mesmo arroz, no mesmo pacote, segue a mesma instrução impressa no verso da embalagem, e nunca cogita que o caldo de galinha em pó que ele compra separado poderia ir direto na panela. Cada compartimento separado é uma venda a mais, cada receita simplificada é uma margem maior, e o cozinheiro doméstico vira engrenagem de uma cadeia que ele acha que está controlando quando na verdade está apenas seguindo o roteiro escrito por outros. A cozinha de casa, esse último reduto de autonomia, virou linha de montagem com avental.
Há algo de profundamente liberador em descobrir que a receita oficial é negociável. Os grandes cozinheiros da história nunca foram os que decoraram manuais, foram os que olharam para a panela e perguntaram por que diabos isso tem que ser assim. Quando os monges medievais começaram a fermentar cervejas com ervas diferentes, quando os mercadores das especiarias trocaram rotas inteiras só para mudar o cheiro de um prato, quando as cozinheiras do interior brasileiro descobriram que folha de louro disfarça qualquer carne velha, eles estavam fazendo a mesma coisa que o espanhol agora faz com caldo no arroz. Estavam recusando a tirania do automático.
O truque do caldo é pequeno e por isso simbólico. Se o sujeito é capaz de questionar a água do arroz, talvez seja capaz de questionar outras coisas que aceita sem pensar, da prestação do consórcio à pauta do telejornal. A cozinha é o laboratório doméstico da desobediência, e a panela é onde o cidadão pratica, sem perceber, o exercício de não acreditar em tudo que mandam ele acreditar. Um grão de arroz bem temperado é mais subversivo do que parece, porque ensina ao paladar que existe diferença entre o que é e o que poderia ser, e essa distinção, uma vez aprendida, contamina todo o resto da vida.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.