A China registrou crescimento de 5% no primeiro trimestre de 2026, superando as expectativas de analistas e do próprio governo de Pequim, que havia rebaixado sua meta para algo entre 4,5% e 5%, o alvo mais modesto desde o início dos anos 1990. O número veio puxado por exportações robustas, o que, traduzido da linguagem sanitizada dos relatórios econômicos, significa que a indústria chinesa despejou mercadorias no mundo a preços que nenhum concorrente ocidental consegue acompanhar. A reação dos mercados foi de euforia calculada, como se 5% de crescimento num país que sustenta controles de capital, manipulação cambial e estatísticas curadas pelo Partido fosse comparável a 5% em qualquer economia onde os números não passam pelo crivo de um comitê central antes de serem publicados.

O que deveria causar espanto não é o número em si, mas a farsa dupla que ele alimenta. De um lado, Pequim usa o dado para provar ao mundo que seu modelo de capitalismo dirigido funciona, que a mão pesada do Estado pode fabricar prosperidade por decreto, que planificação central com características chinesas é superior ao caos das economias abertas. Do outro lado, Washington e Bruxelas usam exatamente o mesmo número para justificar novas rodadas de tarifas, sanções e restrições comerciais, argumentando que a China cresce "demais", cresce "rápido demais", cresce de maneira "injusta". Perceba a armadilha: se a China cresce, é ameaça e precisa ser contida; se a China desacelera, é instável e precisa ser monitorada. Nos dois cenários, a burocracia ocidental expande seu poder regulatório, os departamentos de comércio ganham orçamento novo e os contribuintes financiam uma escalada protecionista que encarece tudo o que consomem.

As exportações chinesas, motor declarado desse crescimento, não existem no vácuo. Elas são o reflexo invertido de uma política monetária ocidental que passou quinze anos imprimindo dinheiro, inflando ativos e destruindo a capacidade produtiva doméstica. Quando um país resolve que é mais nobre ter economias baseadas em "serviços financeiros" e "economia criativa" do que em fábricas, ele não elimina a demanda por produtos físicos, apenas a terceiriza. A China não roubou a manufatura do Ocidente; o Ocidente a entregou de bandeja, celebrando cada fábrica fechada como "transição para a economia do conhecimento" enquanto o trabalhador que operava a máquina era reciclado em entregador de aplicativo. Agora, quando a fatura chega na forma de dependência comercial, a resposta dos mesmos governos que criaram o problema é impor tarifas que o consumidor final paga no caixa do supermercado. O Estado cria o desequilíbrio, o Estado propõe a solução, e o cidadão paga duas vezes.

Há algo particularmente revelador na decisão de Pequim de rebaixar a meta de crescimento para o menor patamar em três décadas. Não é modéstia; é cálculo. Uma meta mais baixa que é superada gera manchetes positivas, confiança artificial e fluxo de capital. É o mesmo truque que qualquer empresa medíocre usa com seus acionistas: rebaixe a projeção no trimestre anterior, entregue um centavo acima e celebre como se fosse genialidade. A diferença é que, quando um governo faz isso, as consequências não se limitam ao preço de uma ação. Cidades inteiras foram construídas na China com base em metas de crescimento anteriores, apartamentos que ninguém habita, shoppings que ninguém frequenta, rodovias que não levam a lugar nenhum. O PIB registrou a construção, os empreiteiros faturaram, os burocratas locais foram promovidos, e agora há cidades fantasmas como monumento ao que acontece quando o crescimento é meta política antes de ser realidade econômica.

A guerra comercial em curso entre Washington e Pequim, da qual esse número de 5% é simultaneamente causa e pretexto, não é um conflito entre sistemas econômicos rivais. É uma disputa entre duas burocracias pelo direito de extrair mais de seus respectivos cidadãos. Cada tarifa americana sobre produtos chineses é um imposto sobre o consumidor americano. Cada subsídio chinês à exportação é um imposto sobre o contribuinte chinês. Os dois governos se acusam mutuamente de "práticas desleais" enquanto praticam exatamente a mesma coisa: usar o comércio internacional como instrumento de poder estatal. Os verdadeiros perdedores nunca estão na mesa de negociação. São o pequeno importador de Ohio que viu seus custos dobrarem, o operário de Guangdong cujo salário é artificialmente comprimido para manter a competitividade exportadora, o agricultor brasileiro que vira moeda de troca em disputas que não entende e não pediu para participar. O PIB da China cresceu 5%. A pergunta que nenhum analista de banco faz é: para quem?

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.