A China cresceu 5% no primeiro trimestre de 2026 e o Partido Comunista Chinês tratou de soltar fogos de artifício estatísticos como se tivesse descoberto a fórmula do crescimento perpétuo. O número é conveniente, bonito, redondo, perfeito para as manchetes internacionais que repetem dados de Pequim com a mesma diligência crítica de quem lê o horóscopo. Mas há um detalhe que a imprensa mundial prefere tratar como nota de rodapé: o próprio governo chinês havia rebaixado sua meta para algo entre 4,5% e 5%, o alvo mais modesto desde o início dos anos 1990. Quando um governo autoritário reduz suas próprias expectativas e ainda assim "atinge a meta", o que se tem não é crescimento orgânico, é contabilidade criativa com características chinesas. A pergunta que ninguém faz é a mais óbvia: se a economia vai tão bem, por que o pessimismo oficial?

A resposta está no Estreito de Ormuz, nas bases militares americanas no Golfo Pérsico e nos contratos de petróleo que a China assinou com o Irã nos últimos anos. A sombra de um conflito iraniano não é uma "nuvem no horizonte", como os analistas de mercado gostam de poetizar entre um café e outro. É uma ameaça concreta ao único recurso que mantém a máquina industrial chinesa funcionando: energia barata. Pequim importa mais de 70% do petróleo que consome, e uma fatia generosa vem justamente do Irã, muitas vezes por rotas que driblam sanções americanas com a criatividade de quem já aprendeu que a lei internacional é apenas uma sugestão para quem tem porta-aviões. Um conflito aberto no Irã estrangularia o fornecimento, dispararia o preço do barril e transformaria aquele bonito 5% em ficção mais rápido do que um pronunciamento do Pentágono consegue dizer "operação cirúrgica".

E aqui entra o padrão que se repete com a regularidade de um relógio suíço desde pelo menos 1914: toda escalada militar é precedida por uma narrativa econômica que a justifica, e toda narrativa econômica é seguida por uma escalada militar que a alimenta. Washington sanciona o Irã para "conter a ameaça nuclear", o que na prática significa forçar Teerã a vender petróleo por baixo do pano exclusivamente para a China, o que fortalece justamente a potência que os americanos dizem querer conter. O Irã, espremido, radicaliza. A China, abastecida, cresce. Os Estados Unidos, indignados com o crescimento chinês, aumentam a presença militar no Golfo. O contribuinte americano financia a frota, o contribuinte chinês financia os subsídios industriais, o cidadão iraniano vive sob inflação de três dígitos, e os acionistas das fabricantes de mísseis e dos fundos de commodities agradecem a Deus, a Alá e ao Buda pela geopolítica. O dinheiro flui sempre na mesma direção: do bolso de quem trabalha para a conta de quem governa e de quem arma.

O que Pequim chama de "crescimento" é, em larga medida, o resultado de uma injeção monumental de crédito estatal direcionado a infraestrutura que ninguém pediu e a setores industriais que produzem para exportar a preços que só são possíveis porque o trabalhador chinês não tem sindicato livre, não tem liberdade de imprensa para denunciar condições de trabalho e não tem o direito de mover seu próprio dinheiro para fora do país. Os números do PIB chinês são reais no mesmo sentido em que a temperatura de um paciente dopado com antitérmicos é "normal": o termômetro confirma, mas o organismo está em colapso. As cidades-fantasma continuam vazias, o mercado imobiliário continua sangrando, a juventude urbana continua desempregada a taxas que Pequim simplesmente parou de publicar porque os números envergonhavam. Mas o PIB cresceu 5%, e é isso que vai para a manchete.

O mais revelador nessa história toda não é o número em si, mas a justaposição que a própria manchete entrega sem perceber: crescimento econômico e guerra na mesma frase, como se fossem fenômenos paralelos, desconectados, obra do acaso. Não são. Nunca foram. A guerra é o programa de estímulo fiscal que nenhum economista de gabinete tem coragem de chamar pelo nome. Cada míssil lançado é um contrato cumprido. Cada sanção imposta é um mercado reorganizado. Cada "tensão geopolítica" é uma oportunidade de compra para quem tem acesso à informação antes do resto do mundo. A China cresce porque produz o que o mundo compra; o mundo compra porque se prepara para conflitos que os mesmos governos fabricam; e os governos fabricam conflitos porque sem eles, a máquina de transferência de riqueza do setor produtivo para o setor bélico pararia, e com ela, o pretexto para a existência de metade dos ministérios, agências e comitês que justificam a expansão eterna do poder estatal. O PIB de Pequim não é um indicador de prosperidade. É o placar de um jogo onde o povo nunca é convidado a jogar, apenas a pagar o ingresso.

Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.