Pequim anuncia, com a solenidade habitual dos comunicados de partido único, que prepara um arcabouço legal para reciclar baterias de veículos elétricos. O detalhe delicioso, que merece ser saboreado em pequenos goles, é que o tal tsunami de descarte ainda não chegou. Estamos diante do raro espetáculo de um governo legislando sobre o lixo do futuro, antecipando regras para um mercado que mal nasceu. Quem acredita que isso é zelo ambiental também acredita que imposto é doação voluntária e que regulação existe para proteger o consumidor.

O truque é antigo, antiquíssimo, repetido desde que o primeiro burocrata descobriu que a caneta vale mais que a espada. Quando o Estado chega cedo numa cadeia produtiva, ele não está chegando para arbitrar, está chegando para distribuir. Distribuir licenças, distribuir cotas, distribuir o privilégio de operar. Quem tiver o carimbo na mão será coroado campeão nacional da reciclagem, herdará um oligopólio costurado por decreto e cobrará pedágio sobre cada bateria velha que entrar na sua peneira. Os outros, os pequenos, os que poderiam competir com engenhosidade, vão descobrir que faltam alvarás, faltam certificações, faltam licenças ambientais cujo deferimento depende de um almoço cuja conta eles não podem pagar.

E há uma camada ainda mais saborosa. Bateria velha de carro elétrico não é lixo, é matéria-prima. Lítio, cobalto, níquel, manganês, terras raras, a tabela periódica inteira dos minerais estratégicos do século vinte e um empilhada num cemitério urbano. Quem controla a reciclagem controla a segunda mineração, aquela que dispensa expedição, geólogo e furadeira. Pequim sabe disso há uma década, talvez duas. A China já domina o refino global desses minerais e agora se posiciona para dominar também o reaproveitamento, fechando um ciclo no qual o resto do planeta entra como fornecedor de sucata e sai como cliente cativo. Chamam isso de meio ambiente. Chame você pelo nome correto: reserva de mercado intercontinental.

A premissa é simples e a conclusão, inevitável. Toda lei que cria barreira de entrada beneficia quem já está dentro. Toda regulação prematura escolhe vencedores antes da corrida começar. Logo, o decreto que regula a reciclagem antes da reciclagem existir não está protegendo a natureza, está reservando assentos. O resto é teatro para o noticiário ocidental, que vai aplaudir de pé porque verde combina com manchete e a manchete combina com o cliente do anunciante. Os chineses agradecem a colaboração e seguem comprando o futuro a preço de varejo.

Enquanto isso, o consumidor europeu que comprou seu carrinho elétrico achando que estava salvando ursos polares vai descobrir, daqui a oito ou dez anos, que a bateria descartada precisa atravessar três continentes para ser processada por uma empresa estatal disfarçada de privada num distrito industrial de Cantão. O preço da reciclagem, claro, virá embutido no carro novo, no IPVA verde, na taxa de descarte ecológico, no imposto de carbono e em qualquer outra invenção retórica que os ministérios do meio ambiente conseguirem patentear até lá. Quem paga é sempre o mesmo sujeito, aquele que acordou cedo, pegou o ônibus e nunca foi consultado sobre nada. Quem recebe são os de sempre, os que estão na sala onde a caneta corre solta enquanto o resto do mundo discute pronome de tratamento.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.