O Partido Comunista Chinês passou três décadas vendendo ao mundo a fábula de que planejamento central temperado com capitalismo de Estado havia finalmente domado o ciclo econômico. Abril chegou e desmentiu o folheto. As vendas no varejo cresceram no ritmo mais lento desde os lockdowns da pandemia, a produção industrial ficou abaixo do esperado, o investimento em ativos fixos perdeu fôlego, e o desemprego juvenil continua sendo uma estatística que o regime maquia porque a verdade é politicamente intolerável. A locomotiva que ia ultrapassar os Estados Unidos antes de 2030 está parada num desvio, soltando vapor pelas frestas, enquanto os engenheiros em Pequim fingem que o problema é o trilho.
O diagnóstico oficial culpa fatores externos, tarifas americanas, conjuntura global, o de sempre. A realidade é mais prosaica e mais dolorosa. A bolha imobiliária que sustentou duas gerações de crescimento estourou e levou consigo a poupança das famílias chinesas, que tinham até setenta por cento do patrimônio em concreto que hoje vale metade. O cidadão médio de Xangai descobriu da pior forma que apartamento construído com crédito subsidiado por banco estatal não é riqueza, é dívida com endereço. Quem comprou na alta paga prestação de imóvel cujo valor de mercado desapareceu. Resultado previsível: ninguém quer gastar, todo mundo quer entesourar, e o consumo, esse termômetro insubornável da confiança, despenca.
O roteiro é conhecido por qualquer um que tenha aberto um livro de história econômica do século vinte. Toda economia que cresce na base do crédito dirigido pelo Estado, da meta percentual fixada em politburo e da estatística forjada para agradar o chefe acaba batendo no mesmo muro. O Japão da década de oitenta tentou, virou três décadas perdidas. A União Soviética dos planos quinquenais tentou, virou pó. A diferença é que a China teve a esperteza de deixar o capitalismo gerar a riqueza antes de tentar controlá-la, mas o instinto leninista do partido não resiste à tentação de apertar o cinto sempre que o empresário ousa enriquecer demais. Cada bilionário desaparecido em jantar com Xi Jinping é um sinal verde para o capital fugir, e o capital, esse animal arisco, já fugiu.
Siga o dinheiro e a paisagem fica nítida. Os fundos soberanos do Golfo realocam para Índia e Vietnã. As multinacionais americanas executam o nearshoring para o México. As fábricas alemãs hesitam diante do risco geopolítico de Taiwan. Os títulos do governo chinês têm rendimento decrescente porque os bancos estatais são obrigados a comprá-los para sustentar o teatro. O yuan se enfraquece num ritmo que Pequim disfarça gastando reservas. E enquanto isso, os subsídios bilionários para veículos elétricos, painéis solares e semicondutores produzem capacidade ociosa industrial em escala que o mundo nunca viu, despejada no mercado global a preço de dumping, o que detona a guerra tarifária que serve de bode expiatório para o desastre interno. O lobby exportador chinês lucra, o contribuinte chinês paga via inflação reprimida e juros artificiais, e o operário de Cantão trabalha por salário que não acompanha o custo de vida.
O custo humano dessa engenharia social aparece nos detalhes que a manchete não conta. Jovens formados em universidades de elite servindo café porque não há vagas qualificadas. Famílias rurais que migraram para o litoral e agora voltam para a aldeia porque a construção parou. Pequenos comerciantes esmagados entre o aluguel que não cai e o cliente que não vem. Aposentados descobrindo que o sistema previdenciário do partido tem um buraco demográfico do tamanho da política do filho único, aquela genialidade de planejamento populacional que agora cobra a fatura com juros compostos. A promessa do enriquecimento coletivo dirigido evaporou no mesmo lugar onde sempre evapora, no descompasso entre o decreto burocrático e a ação humana real.
Os mercados ocidentais reagirão com o ritual habitual, pedindo mais estímulo, mais corte de juros, mais injeção de liquidez, como se o problema fosse falta de combustível e não motor fundido. Pequim provavelmente obedecerá, porque a alternativa, deixar a recessão limpar os malinvestimentos acumulados em quinze anos de crédito barato, é politicamente suicida para um regime cuja legitimidade se assenta exclusivamente na prosperidade contínua. Imprimirão mais yuans, comprarão mais dívida podre, anunciarão mais megaprojetos de infraestrutura para lugar nenhum. E quando a próxima safra de dados decepcionar, culparão Washington, Taiwan, o clima, a lua. Qualquer coisa, menos a verdade evidente: nenhum comitê central, por mais brilhante que seja, jamais saberá mais do que milhões de indivíduos negociando livremente. A história já escreveu esse capítulo várias vezes. Os chineses estão prestes a relê-lo na carne.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.