A DeepSeek, aquela mesma empresa que o Departamento de Comércio americano tentou estrangular com controles de exportação de semicondutores, acaba de soltar a prévia do seu modelo V4. Enquanto Washington gastou os últimos três anos desenhando listas de entidades proibidas, redigindo memorandos sobre chips H100 e convencendo TSMC, ASML e Samsung a colaborarem no cerco, os engenheiros de Hangzhou aparentemente não receberam o memorando de que deveriam estar atrasados. Produziram um modelo competitivo com uma fração do capital queimado pela OpenAI, Anthropic e Google. A proibição funcionou tão bem quanto proibir bebida funcionou em Chicago nos anos vinte.
Convém seguir o dinheiro antes da narrativa. Os controles de exportação não foram escritos por monges tibetanos preocupados com a segurança nacional. Foram lobiados, redigidos e celebrados por um cartel específico do Vale do Silício que precisa desesperadamente que a competição chinesa permaneça travada, porque o valuation de trilhões de dólares das gigantes americanas de IA depende de uma suposição muito frágil, a de que ninguém mais consegue fazer o que elas fazem. Quando surge um modelo aberto chinês rodando em hardware inferior com resultados comparáveis, o castelo de cartas treme. Por isso a reação histérica de janeiro passado, quando o V3 derrubou um trilhão de dólares em capitalização de mercado num único pregão. O problema nunca foi geopolítico, foi patrimonial.
Há um padrão histórico aqui que se repete com pontualidade britânica. Toda vez que uma potência hegemônica tenta congelar o mapa tecnológico para preservar sua renda de monopólio, acelera exatamente aquilo que pretendia conter. O bloqueio continental napoleônico tornou a Inglaterra mais rica. O embargo americano a Cuba sustentou os Castro por seis décadas. As sanções ao Irã criaram uma indústria paralela de drones que hoje aparece em Kiev e em Tel Aviv. A lógica é simples e ninguém em Washington parece capaz de compreendê-la: restrição força substituição, substituição força inovação, inovação força independência. O aluno aprendeu porque o professor recusou ajuda.
Enquanto isso, o contribuinte americano paga duas vezes a mesma conta. Paga via CHIPS Act, os cinquenta e dois bilhões de dólares injetados em corporações privadas sob o pretexto de soberania industrial, dinheiro que evaporou em fábricas atrasadas da Intel e em subsídios corporativos que nunca chegariam à Apple sem a fantasia do perigo amarelo. E paga de novo via inflação do orçamento do Pentágono, que agora inclui uma rubrica chamada competição estratégica com a China suficientemente elástica para justificar qualquer contrato. O acionista da Nvidia sorri, o operário de Ohio continua esperando a reindustrialização prometida desde Obama, o engenheiro chinês lança o V4 de graça na internet.
O detalhe mais delicioso é a natureza aberta do modelo. A DeepSeek publica pesos, publica arquitetura, publica papers. Os laboratórios americanos, financiados em boa parte por dinheiro público via contratos militares, NSF e incentivos fiscais, trancam tudo a sete chaves sob o argumento comovente de segurança da humanidade. Traduzindo do diplomatês para o vernáculo, o modelo que o cidadão pagou para desenvolver é propriedade privada de quatro companhias, e o modelo que o Partido Comunista Chinês subsidiou está disponível para download. Quem de fato defende o livre acesso ao conhecimento nesta história, e quem apenas recita a palavra abertura enquanto patenteia cada peso sináptico, fica como exercício para o leitor.
Ao fim, a corrida da IA revela o mesmo enredo das guerras comerciais anteriores, do aço japonês nos anos oitenta aos painéis solares chineses nos dois mil e dez. Governos não protegem indústrias, protegem acionistas específicos, e chamam isso de interesse nacional. O consumidor paga preços mais altos, o engenheiro estrangeiro trabalha dobrado e vence, o político posa para a foto com capacete de fábrica. Daqui a cinco anos, quando o V7 ou V8 estiver rodando em algum chip fabricado em Xangai que ninguém previu existir, os mesmos analistas que hoje aplaudem os controles de exportação explicarão com ar grave que a culpa foi da globalização, nunca da própria burrice regulatória. A muralha sempre cai, e quase sempre cai para o lado errado de quem a construiu.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.