O episódio é daqueles que valem mais que mil pesquisas eleitorais. No palanque montado em Fortaleza para lançar a empreitada ao Palácio da Abolição, o pré-candidato interrompeu o próprio discurso, esticou o dedo na direção da plateia e ordenou, com a solenidade de um pretor romano em dia ruim, que prendessem ali mesmo o sujeito que fazia um gesto com a mão. O homem, descobriu-se em seguida, era apoiador. Não acenava facção, acenava fã. O aspirante a comandante supremo da segurança cearense acabava de mandar algemar o próprio cabo eleitoral por crime de entusiasmo.
A cena seria cômica se não fosse didática. Eis o protótipo perfeito do homem público que pede o monopólio da força para resolver o problema da violência e, no teste mais elementar imaginável, distinguir amigo de inimigo a três metros de distância, é reprovado com louvor. Se na bolha protegida do palanque, cercado de seguranças, microfones e holofotes, o sujeito confunde admirador com bandido, imagine o critério que aplicará quando estiver assinando decretos sobre operações policiais em comunidades inteiras. O erro não é detalhe pitoresco da campanha, é amostra grátis da metodologia.
Há aqui uma lição antiga e teimosa sobre o poder. Quem aspira a mandar nos outros gosta de dramatizar a própria vigilância, porque a encenação do medo é a matéria-prima do cargo. Vende-se proteção contra um perigo previamente inflado, e o cidadão, agradecido, paga o imposto, aceita a revista, aplaude a algema. O político da ordem precisa enxergar facção em todo canto pela mesma razão que o vendedor de guarda-chuvas precisa de chuva. Quando não há, inventa-se. Um gesto inocente vira sinal cifrado, um apoiador vira suspeito, e a tropa de choque vira solução. O método é tão velho quanto os impostos extraordinários para guerras que nunca aconteceram.
Repare na inversão moral do espetáculo. O eleitor saiu de casa, gastou seu tempo, pagou sua passagem, foi prestigiar o candidato que jura representá-lo, e recebeu como troco a ordem de prisão pública, narrada ao vivo, com câmera e tudo. Quem paga a conta do comício? O sujeito da plateia, em última instância, via tributo direto ou indireto, já que campanha no Brasil sangra fundo eleitoral, isenção, estrutura pública camuflada e tempo de televisão custeado por todos. Quem colhe o aplauso? O homem do palanque. E quando o cálculo dá errado, quem leva a algema? Adivinhe.
O detalhe revelador é a pressa. Não houve pergunta, não houve dúvida, não houve aquele instante mínimo de prudência que separa o magistrado do linchador. Houve dedo em riste e voz de comando. O coisas são o que são: um homem que, diante do aceno mais banal do mundo, escolheu instantaneamente a hipótese da cadeia, escolherá sempre a hipótese da cadeia. Premissa maior, premissa menor, conclusão inevitável. Não se trata de gafe, trata se de temperamento, e temperamento, em homem público, é programa de governo disfarçado de personalidade.
Resta a pergunta de sempre, a única que importa quando o circo do poder arma a lona. Quem paga e quem recebe? Paga o eleitor confundido com bandido, paga o contribuinte cearense que financia a brincadeira, paga o pobre da periferia que amanhã será confundido com a mesma facção imaginária por uma viatura cumprindo ordens vindas do mesmo dedo apontado. Recebe o candidato, que vira manchete, recebe o aparato, que ganha pretexto, recebe a indústria do medo, que segue lucrando. O rei estava nu no palanque, e desta vez foi o próprio rei quem se denunciou, gritando ladrão para o súdito que veio bater palmas. O resto é só esperar a urna decidir se o Ceará quer mesmo entregar o cassetete a quem não enxerga direito a três passos do nariz.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.