O presidente americano declarou, com a sutileza de um leiloeiro de gado, que detém "todas as cartas" no jogo contra o Irã. As negociações estão travadas, o cronômetro corre, e o mercado, esse oráculo cínico que nunca mente sobre onde está o dinheiro, respondeu da única forma que sabe responder a tensão no Golfo Pérsico: petróleo em alta, ações em alta, contratos futuros aquecidos. Quando o investidor compra defesa e energia ao mesmo tempo, ele não está confuso, como sugerem os analistas bem comportados da imprensa financeira. Ele está apostando no óbvio.
O óbvio é o seguinte: há setenta anos a relação entre Washington e Teerã segue o mesmo roteiro, escrito originalmente em 1953, quando agentes estrangeiros derrubaram um primeiro-ministro eleito porque ele teve a audácia de querer nacionalizar o próprio petróleo. Instalou-se um xá, vendeu-se armamento por duas décadas, perdeu-se o aliado em 1979, e desde então o Irã virou o vilão permanente, conveniente, reciclável. Vilão útil é aquele que nunca morre de vez, porque morto não justifica orçamento. O Pentágono precisa de um Irã da mesma forma que a indústria farmacêutica precisa de uma doença crônica: a cura arruinaria o trimestre.
Siga o rastro dos contratos e a tese se confirma sozinha. Cada rodada de "máxima pressão" engorda os balanços de fabricantes de mísseis interceptadores que serão vendidos a Israel, a Arábia Saudita, aos Emirados, ao Catar, à Jordânia. Cada porta-aviões deslocado para o Estreito de Ormuz é financiado pelo americano comum que paga imposto de renda enquanto vê seu salário corroído por uma inflação que ninguém ousa chamar pelo nome. O barril em alta encarece o frete, o frete encarece o supermercado, o supermercado quebra a dona de casa em Ohio e em Recife. A guerra geopolítica é regressiva: o pobre paga primeiro, paga mais e paga sempre.
A retórica das "cartas" também merece tradução. Quando um chefe de Estado anuncia que tem todas as cartas, ele está dizendo, em linguagem de cassino, que pretende quebrar a banca do outro lado, e a banca do outro lado é uma população de noventa milhões de pessoas que já vive sob sanções há décadas. Sanção não é diplomacia, é cerco medieval com selo do Tesouro americano. Mata diabético sem insulina, mata criança com câncer sem quimioterápico, mata aposentado sem remédio cardíaco, e mantém intocado exatamente o regime que dizia querer derrubar. O bloqueio sempre fortalece quem está dentro do muro e arruína quem está dentro da casa. Foi assim em Cuba, foi assim no Iraque dos anos 90 com seu meio milhão de crianças mortas que uma secretária de Estado certa vez classificou como preço aceitável, e está sendo assim em Teerã.
O que o investidor de Wall Street percebeu, e o que a manchete da CNBC disfarça com vocabulário neutro, é que a indefinição vale mais do que a paz e mais do que a guerra declarada. Paz reduz orçamento militar. Guerra total assusta o S&P. O ponto ótimo é o impasse permanente, o blefe eterno, a ameaça calibrada, o porta-aviões em rotação. Esse é o produto que está sendo vendido. Esse é o motivo de o petróleo ter subido sem que um único tiro tenha sido disparado. O medo é commodity, e tem cotação diária em Chicago.
No fim da linha, como sempre, sobra o de sempre. Sobra o jovem persa que queria abrir uma cafeteria em Isfahan e não consegue importar a máquina italiana porque o swift bloqueou o pagamento. Sobra o soldado americano de vinte anos que será enviado a um deserto cujo nome ele não sabe pronunciar, em nome de uma democracia que ele não verá florescer. Sobra o motorista brasileiro que abastece mais caro porque dois homens em ternos caros, a quinze mil quilômetros de distância, decidiram fazer pose de pôquer. Eles têm todas as cartas, sim. O baralho é que foi marcado, e quem paga a aposta nunca foi convidado para a mesa.
Com informações da CNBC World. A análise e opinião são do O Algoz.