Existe uma ilha no Oceano Índico, entre Madagascar e o continente africano, que o governo francês, com a seriedade de quem assina um atestado falso, classifica como território europeu. Chama-se Mayotte, é o 101º departamento da França desde 2011, e quem chega lá encontra bidonvilles, violência endêmica, hospitais afogados em pacientes, escolas sem professores e uma taxa de pobreza que faria corar qualquer burocrata de Bruxelas, desde que ele tivesse a honestidade de corar por alguma coisa. Cerca de 77% da população vive abaixo da linha de pobreza francesa, número que, dito assim, soa como estatística, mas que, visto de perto, é gente dormindo em barracos de zinco a duzentos metros de uma lagoa de uma beleza que tira o fôlego. A contradição não é acidental. É estrutural.
A pergunta que o jornalismo turístico nunca faz, porque o jornalismo turístico foi lobotomizado a serviço da leveza, é: como uma ilha administrada por uma das maiores potências econômicas do planeta, receptora de transferências federais milionárias, integrada ao sistema de saúde e educação franceses, chegou ao ponto de ser chamada, sem ironia, de "a ilha mais perigosa da Europa"? A resposta não está na geografia nem na cultura local. Está na lógica perversa de qualquer aparato estatal que cresce sobre um problema sem jamais resolvê-lo, porque resolver o problema eliminaria a justificativa para o próprio aparato. O Estado francês em Mayotte não é a solução. É o ecossistema que tornou o problema sustentável o suficiente para durar décadas sem explodir completamente, e insustentável o suficiente para justificar mais verbas, mais funcionários, mais decretos.
A imigração clandestina vinda das ilhas Comores vizinhas é o nó central da crise, e é também o ponto onde a hipocrisia atinge seu ápice operístico. A França mantém Mayotte como departamento justamente para exercer soberania sobre aquelas águas e aqueles recursos. Ao fazer isso, cria um diferencial tão brutal de renda e direitos entre Mayotte e Comores que a imigração ilegal se torna não apenas compreensível, mas matematicamente inevitável. Depois, monta operações de deportação, constrói muros simbólicos, promete reforço policial, e o ciclo recomeça. Já os romanos sabiam que uma fronteira que convida pela diferença que cria é uma fronteira que nenhum exército sustenta indefinidamente, mas esse tipo de saber histórico não costuma sobreviver à faculdade de ciências políticas.
O viajante que resolve visitar Mayotte, atraído pela lagoa deslumbrante, pelos manguezais intocados, pela vida marinha que rivaliza com os melhores destinos do Pacífico, descobre rapidamente que existe uma cidade dupla: a que aparece no Instagram e a que funciona nas ruas. De dia, mergulhos em recifes de coral de uma transparência ultrajante; de noite, bairros onde não se anda sem escolta e onde a polícia nacional opera em escassez crônica. Não é que a beleza seja mentira. É que ela coexiste com uma miséria que não pede permissão para existir ao lado dela. O turismo de nicho que a ilha tenta construir é um exercício de equilibrismo sobre um vulcão social, e quem vende o pacote sabe disso, mas o preço da passagem não inclui a nota de rodapé.
O que Mayotte revela, com uma crueza que dispensa ornamentos retóricos, é que a Europa não é uma civilização, é uma marca. Uma marca poderosa, capaz de transformar juridicamente uma ilha africana em "território europeu" sem transformar em nada substancial as condições de vida de seus habitantes, sem alterar a estrutura de dependência, sem criar a prosperidade que só nasce quando há liberdade real, propriedade garantida e Estado limitado às funções que não sufocam a iniciativa humana. O que há em Mayotte é o oposto disso: um Estado hipertrofiado que administra a pobreza com eficiência burocrática, transfere recursos que alimentam uma classe de gestores sem criar capital produtivo, e exporta para o mundo a foto da lagoa enquanto esconde o barraco atrás do enquadramento. Toda a grandeza colonial francesa cabe nessa fotografia mal cortada.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.