O ciclone extratropical avisou antes de chegar, marcou hora, indicou o trajeto entre o litoral gaúcho e o catarinense, e ainda assim, pode apostar, vai pegar a metade dos municípios de calças curtas. Não é mistério meteorológico, é tradição administrativa. A natureza cumpre cronograma com pontualidade alemã; a prefeitura, não. E quando o vento passar dos noventa por hora, quando a ressaca comer o calçadão e o aeroporto fechar, vai surgir, do nada, uma fila de autoridades de colete com logotipo bordado pedindo recursos emergenciais, como se o céu tivesse traído um pacto secreto que ninguém assinou.

Repare no roteiro, porque ele se repete com a fidelidade de missa rezada. Primeiro vem o alerta dos meteorologistas, que são, ironicamente, os únicos servindo a algo parecido com a verdade técnica. Depois vem o silêncio das secretarias municipais, que passaram o ano inteiro sem desassorear bueiro, sem podar árvore, sem refazer talude, mas gastaram fortunas em campanhas publicitárias com gestor sorrindo de capacete. Quando a água sobe, surge o terceiro ato, o mais lucrativo: o decreto de emergência, que dispensa licitação, libera verba federal, contrata empresa amiga em regime de urgência, e transforma tragédia previsível em janela de oportunidade. Quem paga a conta da incompetência preventiva é o contribuinte; quem fatura na bagunça reativa é sempre o mesmo cartel de fornecedores caridosos.

Há quem diga que é injusto cobrar planejamento de prefeito diante de força da natureza, e essa é a frase mais conveniente já inventada pelo poder público brasileiro. Holandeses moram abaixo do nível do mar há séculos e não improvisam dique com saco de areia toda vez que o Atlântico Norte espirra. Veneza inteira foi erguida sobre estacas de madeira em pântano, e seguiu de pé enquanto impérios ruíram em volta. A diferença não é geográfica nem climática, é institucional: lá, quem fracassa perde cargo e patrimônio; aqui, quem fracassa ganha verba extraordinária e foto na manchete abraçando vítima. O incentivo está invertido, e o resultado é matematicamente inevitável.

O cidadão do Sul, esse sim, faz o que pode. Sobe móvel, isola tomada, abastece carro, compra vela, e atravessa o temporal com a serenidade triste de quem já entendeu, há muito tempo, que a estrutura paga com seu imposto serve para tudo menos para protegê-lo. A defesa civil chega quando o pior já passou, distribuindo cesta básica com etiqueta partidária. O bombeiro, herói legítimo, opera com viatura de duas décadas e bota furada. O hospital regional não tem gerador decente porque o pregão foi vencido pelo primo de alguém. E o vereador, esse vai aparecer no helicóptero da rede de TV apontando para a enchente como quem descobriu a América.

Toda calamidade anunciada que se materializa exatamente como anunciada deixa de ser calamidade e vira escolha. Escolha de não drenar, de não dragar, de não investir em infraestrutura silenciosa, daquelas que não rendem inauguração com tesoura e fita vermelha. Vento e chuva são variáveis físicas; o estrago é variável política. E enquanto o eleitor continuar comprando a narrativa de que catástrofe é fatalidade e não negligência, o ciclo se repete, com novo ciclone, novo decreto, nova verba, novo enriquecimento discreto, e a mesma população enxugando o tapete de casa enquanto assiste, na televisão, o discurso comovido de quem deveria ter cuidado disso em janeiro.

Então, antes que o noticiário comece o seu balé de drones sobrevoando telhados arrancados, pergunte a si mesmo a pergunta que ninguém quer responder: se o aviso veio com dias de antecedência, se a tragédia tem CEP conhecido, se o orçamento foi votado e aprovado, por que o estrago é sempre do tamanho do descuido, e nunca do tamanho da previsão? A resposta não está no céu. Está no contracheque de quem lucra com o caos.

Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.