Foram trinta faltas num único jogo de futebol. Dezessete de um lado, treze do outro, como se a partida fosse uma negociação sindical em que ambos os lados disputavam quem interrompia mais o trabalho alheio. O árbitro, figura que deveria zelar pela fluidez do espetáculo, tornou-se o personagem mais ativo do campo, apitando com a regularidade de um metrônomo avariado. O torcedor que pagou ingresso, que organizou o fim de semana, que levou filho pequeno esperando ver o futebol que os brasileiros venderam ao mundo como herança cultural, assistiu a uma briga de rua com uniforme bordado.

Há uma palavra grega, esquecida nos corredores das federações esportivas, que designa a excelência própria de cada coisa, a realização plena da sua natureza. Um martelo excelente prega pregos com precisão. Um cavalo excelente galopa com potência e graça. Um jogo de futebol excelente produz combinações, velocidade, gol, emoção genuína, aquela tensão específica que não pode ser fabricada por roteiro. O que se viu no clássico paulista foi a negação sistemática dessa excelência, não por acidente, mas por método. As faltas não foram o subproduto infeliz de uma disputa intensa; foram a estratégia, o instrumento, o plano de jogo disfarçado de raça e garra.

A história registra impérios que, ao perderem a capacidade de produzir riqueza real, passaram a redistribuir pobreza com crescente eficiência burocrática. O futebol brasileiro percorreu caminho parecido. Numa geração que terminou há trinta anos, o país exportava inteligência de jogo, inventividade, aquela coisa sem nome que os europeus tentaram copiar e nunca conseguiram porque nasce de uma relação com a bola que se aprende descalço numa pelada sem juiz. Hoje, exportamos volantes que correm muito e chutam pouco, laterais atléticos e tecnicamente medianos, e um modelo tático cujo principal atributo é destruir o jogo do adversário antes de construir o próprio. A cotovelada virou moeda corrente porque o drible ficou caro demais de ensinar.

Observe a trilha do dinheiro, porque ela nunca mente. Os dois clubes desta história acumulam dívidas que envergonhariam um governo municipal mal administrado, e não é exagero de linguagem, é comparação legítima, porque as estruturas financeiras de grandes clubes brasileiros operam com a mesma lógica do poder público: gastam o que não têm, prometem o que não podem, e socializam o prejuízo entre fornecedores caloteados, atletas com salários atrasados e torcedores que compram camiseta de time tecnicamente insolvente. Nesse ambiente, a prioridade não é o espetáculo, é o resultado a qualquer custo, porque resultado traz receita imediata de cotas televisivas, e cotas televisivas pagam o salário do técnico que será demitido em quatro meses de qualquer forma.

O empate em si não é o problema. Empates honestos, frutos de dois times que se equilibraram em qualidade, fazem parte da gramática do esporte. O escândalo está na natureza do que foi produzido, numa partida em que a interrupção foi mais frequente que o jogo, em que a falta foi mais rentável que o drível, em que nenhum dos vinte e dois jogadores em campo ousou ser o mais inteligente por mais de trinta segundos seguidos. Há uma covardia estética no futebol contemporâneo que ninguém quer nomear porque virou norma, e o que vira norma perde o escândalo que merece. Trinta faltas num clássico nacional não é intensidade. É confissão.

O torcedor vai voltar na próxima rodada. Vai pagar, vai torcer, vai gritar. E os clubes, as federações, os patrocinadores, a televisão, todos sabem disso com a certeza tranquila de quem conhece o tamanho do vício que administra. Enquanto a demanda por ingresso não cair, a oferta de qualidade não precisa subir. Essa é a única lei que os cartolas conhecem de cor, e a única que nunca violam.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.