A Jovem Pan transmite o clássico Corinthians x Palmeiras ao vivo, e nesse simples fato repousa uma lição que nossos governantes passam a vida inteira fingindo não aprender. Uma empresa privada, sem subsídio, sem concessão pública negociada nos bastidores de Brasília, sem verba de publicidade estatal comprada com o dinheiro de quem trabalha, simplesmente vai ao ar. Contrata, produz, transmite. O torcedor liga o rádio ou o celular e assiste. Ninguém precisou convocar uma reunião interministerial para que isso acontecesse. Nenhuma agenda de desenvolvimento sustentável foi consultada. Nenhum decreto regulatório criou as condições de possibilidade para que Cássio defendesse um pênalti ou Endrick saísse em velocidade pela esquerda.
Aristóteles, que entendia de política com uma profundidade que envergonha qualquer ciência social fabricada no século XX, distinguia claramente entre o que existe por natureza e o que existe por convenção. O futebol, como paixão popular, existe por natureza. A burocracia que tenta regulá-lo, taxá-lo, concessioná-lo e transformá-lo em moeda de troca política existe por convenção, e convenções ruins precisam ser desmontadas ou ao menos ridicularizadas em público. Rothbard completaria o raciocínio com a precisão de quem opera bisturi em vez de machado: toda intervenção estatal num mercado que funciona é, por definição, uma subtração de valor. Não uma redistribuição, não um equilíbrio, não uma correção. Uma subtração. Alguém perde para que o aparelho ganhe.
O modelo de concessão de rádio e televisão no Brasil é um dos mais escandalosos repositórios de patrimonialismo que este país jamais produziu, e ele produz muito. Desde que Getúlio Vargas entendeu que microfone e câmera eram instrumentos de poder antes de serem instrumentos de comunicação, o Estado brasileiro nunca largou o pescoço da mídia. Concessões são renovadas em troca de silêncios e apoios. Verbas publicitárias são distribuídas como recompensa e retiradas como castigo. Bastiat escreveu em 1850 que o Estado é a grande ficção através da qual todos tentam viver às custas de todos os outros, e ele não tinha nem como imaginar que um dia existiria um Ministério das Comunicações brasileiro. Teria ficado sem palavras, o que para um economista liberal é sinal de verdadeiro horror.
A Jovem Pan, neste domingo de clássico, é um lembrete involuntário e valioso de que o mercado de comunicação, quando não sufocado pelo Estado, produz o que o público quer. Não o que o governo acha que o público deveria querer, não o que um conselho regulador de burocratas com mandatos de quatro anos deliberou em reunião fechada, mas o que o público efetivamente quer. O Corinthians e o Palmeiras enchem estádios e lotam plataformas de streaming porque dois séculos de teoria econômica austríaca explicam com rigor matemático o que qualquer dono de boteco sabe por instinto: quando você oferece algo que as pessoas valorizam, elas pagam. Quando você oferece algo que um decreto obrigou a existir, as pessoas desviam o olhar.
Chesterton observou, com aquela ironia britânica que não envelhece, que a tradição é a democracia dos mortos. O futebol brasileiro é uma das poucas tradições que sobreviveu a todas as tentativas de cooptação política, e sobreviveu justamente porque tem raízes populares profundas demais para que qualquer movimento de vanguarda intelectual consiga arrancar. Quando um operário de São Bernardo e um advogado de Perdizes sentam na mesma arquibancada para xingar o mesmo árbitro, está acontecendo algo que Aristóteles chamaria de philia, amor cívico, um dos tijolos da cidade justa. O Estado não construiu isso. O Estado não poderia ter construído isso. O Estado, na melhor das hipóteses, ficou de fora enquanto acontecia.
Então, neste clássico transmitido pela Jovem Pan, além de gol e esquema tático, há uma tese política clara para quem tiver olhos de ver. A liberdade funciona. Quando o mercado opera sem tutela, ele entrega. Quando as pessoas podem escolher com o controle remoto e o bolso, elas escolhem o que as alegra, o que as une, o que tem valor real para elas. O Estado, enquanto isso, realiza reuniões sobre diretrizes de comunicação e publica portarias que ninguém lê. O torcedor não está nem aí para a portaria. Ele está vendo o jogo. E isso, meus caros, é a liberdade em ação: silenciosa, eficiente, absolutamente indiferente à necessidade que o poder tem de ser indispensável.