O calendário do homem mais poderoso da República ficou apertado justamente na semana em que teria de sentar à mesa com os advogados. Que coincidência administrativa deliciosa. O presidente do Supremo Tribunal Federal desmarcou a reunião marcada para quarta com o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil e as seccionais, alegando "sobrecarga nas atividades" da corte. Traduzindo do palaciano para o vernáculo dos mortais: não estou com vontade, voltem outro dia, de preferência nunca. A Ordem, acostumada a ser tratada com a reverência protocolar que a liturgia republicana ainda finge manter, achou a atitude incomum. Incomum é eufemismo elegante para desaforo.

Convém lembrar o óbvio, porque o óbvio anda em falta: o Supremo não é um clube privado de onze sócios vitalícios que decidem quando abrir a porta. É órgão público, sustentado pelo bolso de quem acorda cedo, custeado por impostos que ninguém aprovou em assembleia, blindado por privilégios que nenhum operário sonharia pedir. Quando o presidente dessa engrenagem diz que está sobrecarregado para receber a entidade que representa a advocacia nacional, ele está dizendo, com todas as letras, que o cidadão comum, que financia o banquete, ocupa posição hierárquica ainda mais desprezível na fila da audiência. Se nem a Ordem entra, imagine o contribuinte.

A alegação de sobrecarga tem sabor cômico particular. A corte que produz decisões monocráticas em série, que legisla por acórdão, que amplia sua jurisdição a cada tarde de terça-feira, que se autoconvoca para julgar tudo, do adultério ao aquecimento global, essa mesma corte agora reclama de excesso de trabalho quando o assunto é conversar. Julgar em regime de urgência quem contrariou o oráculo, sim. Sentar dez minutos para ouvir a classe que sustenta o funcionamento do próprio sistema, não. A régua é conhecida: para o poder, tempo sobra; para a prestação de contas, o relógio quebra misteriosamente.

Vale a analogia antiga. Quando os pretores romanos começaram a despachar do gabinete sem receber os postulantes, quando a magistratura deixou de ser serviço público e virou dignidade sacerdotal, a República já estava morta havia tempos, faltava só o funeral oficial. O sintoma é sempre o mesmo em toda parte e em toda época: o funcionário que se acha superior à função, o servidor que confunde cargo com propriedade, a toga que se autoconcede aura de manto litúrgico. O nome disso, quando escrito sem verniz, é aristocracia togada. E aristocracia togada, historicamente, termina de duas maneiras: cai por decreto do povo cansado ou apodrece por dentro até virar farsa que ninguém mais leva a sério.

A pergunta que interessa, porém, é sempre a mesma e ninguém quer fazer: quem ganha com esse adiamento? Ganha o presidente da corte, que evita o constrangimento de ouvir cobranças sobre morosidade, sobre decisões monocráticas abusivas, sobre a inflação de foros privilegiados, sobre o descontrole de gastos, sobre os penduricalhos que fazem o salário oficial parecer entrada de cardápio. Perde a advocacia, que continuará esperando na antessala como pedinte medieval. Perde o cidadão, que segue pagando a folha de um tribunal cujo presidente não tem tempo nem para o cerimonial mínimo. Ganha, no fim, o arranjo inteiro, que se retroalimenta do silêncio constrangido de todos os que deveriam gritar.

O rei está nu, a corte está atrasada, a agenda está cheia de nada, e o povo continua sendo tratado como plateia paga para aplaudir. Enquanto a Ordem finge estranheza diplomática, a piada segue de pé: o servidor público mais bem pago da República não tem tempo para servir. Tem tempo, isso sim, para ser servido. E quem paga o couvert artístico dessa peça mal ensaiada, todo mês, sem direito a reclamar do cardápio, já sabemos quem é.

Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.