O espetáculo é tão patético quanto previsível. Uma equipe de policiais tailandeses, em sua maioria homens, decidiu que a melhor forma de capturar um suspeito de vender entorpecentes era enfiar-se em vestidos cintilantes, maquiar-se grotescamente e desfilar pelas ruas de Bangcoc como um carnaval improvisado. O vídeo viralizou, o traficante foi algemado, e a imprensa internacional aplaudiu a criatividade. Ninguém perguntou quanto custou a fantasia. Ninguém perguntou quantos quilos de droga continuaram circulando enquanto meia dúzia de agentes ensaiava o passo de dança da operação.
A guerra às drogas é, há mais de meio século, o programa de assistência social mais lucrativo já concebido pelo Estado moderno, só que o beneficiário não é o pobre, é o policial sindicalizado, o fornecedor de armamento, o construtor de presídios e o cartel que precisa do proibicionismo para manter margens dignas de monopólio. Cada operação espetacular, cada apreensão fotografada, cada prisão viralizada serve à mesma engrenagem: justificar orçamentos crescentes para um problema que cresce justamente porque é combatido daquela forma. A Tailândia, vale lembrar, já viveu uma das guerras antidrogas mais sanguinárias do século, quando, no início dos anos 2000, mais de duas mil pessoas foram executadas sumariamente sob a desculpa de combate ao tráfico. Muitas sequer tinham relação com o comércio. O Estado matou primeiro, conferiu a lista depois.
Há algo de profundamente revelador na escolha do espetáculo. Quando uma instituição precisa recorrer ao deboche público para legitimar sua existência, é porque a substância já se esvaiu. A repressão proibicionista tailandesa, replicada à exaustão a partir do modelo exportado por Washington desde os anos 70, transformou camponeses em traficantes, traficantes em mártires e policiais em atores de novela. O resultado tangível, depois de décadas, é o mesmo de sempre: o consumo não diminuiu, o preço da droga oscila conforme a sazonalidade da repressão, e o pequeno vendedor de rua continua sendo o único elo da cadeia que efetivamente vai para a cela. O peixe grande nunca aparece nos vídeos virais, porque o peixe grande paga propina, contrata advogado e financia campanha.
O custo humano dessa palhaçada não está no homem preso, que provavelmente apodrecerá numa cadeia tailandesa onde a expectativa de vida é menor que a de um soldado em trincheira. O custo está na família que perdeu o provedor, na comunidade que continuará comprando do próximo vendedor em três dias, no contribuinte que financia uma máquina repressiva que sabe não funcionar mas insiste em funcionar mal. O custo está na criança que cresce vendo o Estado como teatro, no jovem que aprende cedo que a lei é fantasia literal, no cidadão que paga imposto para sustentar um circo cujos palhaços portam algemas e armas de fogo. Curioso como o monopólio da violência sempre encontra tempo para coreografia.
Enquanto isso, os verdadeiros beneficiários do proibicionismo global seguem indiferentes ao folclore asiático. Bancos internacionais continuam lavando bilhões em dinheiro do narcotráfico e pagando multas simbólicas quando flagrados, multas que representam fração ínfima do lucro obtido. Fabricantes de equipamento policial vendem mais blindados, mais armas, mais sistemas de vigilância a cada nova ofensiva. Políticos colhem votos prometendo dureza, juízes constroem carreiras condenando pobres, e a indústria carcerária privada, onde existe, multiplica seus dividendos a cada nova prisão. O vestido brilhante do policial tailandês é apenas a vitrine kitsch de um negócio bilionário que prospera precisamente porque finge combater o que sustenta sua existência.
A próxima vez que aplaudirem a criatividade de uma operação policial, lembrem-se: quanto mais espetáculo, menor o resultado real. Quanto mais brilho, mais opaca a contabilidade. Quanto mais riso, mais lágrimas em algum canto que a câmera não filma.
Com informações da RT News. A análise e opinião são do O Algoz.