Miguel Díaz-Canel descartou, com a serenidade de quem nunca foi eleito por ninguém, qualquer necessidade de mudança no governo cubano diante da pressão exercida por Donald Trump. A declaração, registrada pela Revista Oeste, tem a estrutura lógica de um ladrão que, ao ser chamado à delegacia, invoca seus direitos constitucionais. A invocação pode ser formalmente válida; o problema está em quem a invoca e por quê. Aristóteles já ensinava, no terceiro livro da Política, que a tirania é a forma corrompida do governo monárquico, aquela em que o poder é exercido em benefício do governante, e não da comunidade. Díaz-Canel não corrige Aristóteles; ele o ilustra.

O argumento da soberania, na boca de um ditador, é sempre uma peça de teatro do absurdo. Soberania, no sentido filosófico e jurídico que a palavra carrega desde Bodin até Burke, pressupõe um povo que delega poder a um governo. Em Cuba, o povo não delega coisa alguma: ele obedece, foge ou morre. Desde 1959, a ilha funciona como um laboratório perfeito do que Rothbard chamou de State as Gang of Thieves Writ Large, o Estado como gangue de ladrões em escala industrial. Toda a produção da ilha é capturada pelo aparato do Partido, toda a propriedade privada foi confiscada por decreto, e o cubano médio recebe do Estado a permissão de existir mal e mal. Quando Díaz-Canel fala em soberania, ele está falando da soberania do regime sobre o povo, não do povo sobre si mesmo. São coisas radicalmente distintas, e confundi-las deliberadamente é a mentira fundacional de todo socialismo.

Siga o dinheiro, como Rothbard sempre recomendava, e a conversa fica mais honesta. Cuba sobrevive há décadas como parasita de potências estrangeiras: primeiro a URSS, que despejou bilhões de dólares na ilha para manter o experimento funcionando como vitrine ideológica, depois a Venezuela bolivariana, que subsidiou o regime com petróleo barato em troca de médicos-escravos exportados pelo governo cubano como moeda de troca. O dinheiro nunca veio do trabalho livre do povo cubano, porque o trabalho livre do povo cubano não existe. Veio sempre de fora, de aliados ideológicos dispostos a financiar a utopia por razões que nada tinham a ver com o bem-estar dos cubanos. Díaz-Canel tem a coragem cínica de falar em soberania justamente no momento em que a Venezuela afunda e o subsidio petrolífero definha. A soberania, neste caso, é o nome bonito dado à miséria sem saída.

Há uma ironia histórica que merece registro. A revolução cubana não foi um movimento espontâneo do povo cubano: foi financiada, articulada e sustentada por interferência externa, primeiro soviética, depois por toda a rede de apoio ocidental que encontrou em Fidel Castro o messias que precisava para justificar suas fantasias coletivistas. Os intelectuais franceses, os acadêmicos americanos, os jornalistas progressistas do mundo inteiro interferiram ativamente na consolidação da ditadura cubana, fornecendo-lhe legitimidade simbólica que ela jamais obteria dentro da própria ilha. Sartre foi a Havana e voltou deslumbrado. Graham Greene romantizou o regime. A New York Times ajoelhou-se diante de Fidel ainda nos anos 1950. Toda essa gente interferiu. Agora, quando Trump pressiona, a soberania cubana subitamente se torna inviolável. O princípio, como de costume, não existe: o que existe é a conveniência.

Aristóteles distinguia, com a precisão que lhe era característica, entre o homem que age segundo a lei e o homem que age segundo o capricho. O tirano age segundo o capricho e veste esse capricho com a linguagem da lei. Díaz-Canel não mudará o governo porque mudar o governo significaria, em última instância, submeter-se ao julgamento das pessoas que governa, e isso um tirano não faz. Não porque não possa: porque a essência da tirania é precisamente a recusa desse julgamento. Tocqueville observou que o despotismo suave das democracias modernas infantiliza os cidadãos; o despotismo cubano, que suave não é, vai além e os aniquila. O que Díaz-Canel chama de estabilidade, Mises teria chamado de cálculo econômico impossível sustentado por coerção pura. O que ele chama de soberania, Bastiat teria chamado de pilhagem legalizada. O que ele chama de governo, Dostoiévski, que entendeu a alma do totalitarismo como poucos, teria reconhecido como o Grande Inquisidor de carne e osso, aquele que troca a liberdade humana pelo pão distribuído pelo senhor.

Trump tem seus defeitos, suas contradições e suas inconsistências, e um dia o Algoz as examinará com o mesmo rigor. Mas a pressão americana sobre Cuba não é o problema de Cuba. O problema de Cuba é Cuba, é sessenta e tantos anos de coletivismo integral que transformou uma das ilhas mais prósperas do Caribe numa prisão ao ar livre onde o povo foge em jangadas improvisadas, arriscando a vida nos tubarões do Estreito da Flórida, para escapar exatamente da soberania que Díaz-Canel defende com tanto ardor. Um povo que foge em massa do seu próprio governo é um povo que já deu o seu veredicto. O ditador, naturalmente, não reconhece essa jurisdição.