O instituto saiu a campo nos dias 12 e 13 de maio, voltou com a planilha quente e anunciou ao país a grande revelação da temporada: o presidente piorou em segurança pública e melhorou em combate à fome. Trinta e quatro por cento dos eleitores ainda têm a santa paciência de dizer que saúde deve ser a prioridade do próximo governante, como quem repete uma reza decorada na infância. É o tipo de manchete que serve para encher página de jornal e justificar o salário do analista político de plantão, mas que esconde, debaixo do verniz técnico, a velha pergunta que ninguém faz em rede nacional: quem paga essa conta e quem fatura com ela?

Comecemos pelo óbvio que insistem em maquiar. Segurança pública piorou porque o monopólio da violência, aquele que cobra imposto sob o argumento solene de proteger o cidadão, terceirizou a proteção para o próprio cidadão e ficou com o troco. O sujeito paga IPVA, IPTU, ICMS, contribuição sindical disfarçada, taxa de iluminação, taxa de incêndio, taxa de existir, e na hora em que o celular é arrancado da mão dele no farol, a resposta institucional é um boletim de ocorrência online e uma campanha publicitária pedindo que ele não reaja. Não é falha do sistema. É exatamente o sistema funcionando como projetado: cobrar como seguradora premium, entregar como porteiro bêbado.

Quanto ao alívio na fome, convém olhar a letra miúda antes de bater palma. Distribuir cesta, transferência, auxílio e bolsa não combate fome, administra fome. Há diferença ontológica entre as duas coisas, e quem confunde uma com a outra ou é ingênuo ou está na folha de pagamento. O combate de verdade seria deixar o sujeito produzir, trocar, empreender, contratar sem pedir licença em triplicata para o cartório, o sindicato, a vigilância sanitária e o fiscal municipal que aparece de terno amassado pedindo a sua parte. Mas isso emanciparia o eleitor, e eleitor emancipado vota com a carteira, não com o estômago. Logo, mantém-se a fome no ponto certo: aliviada o bastante para render gratidão, mantida o bastante para render voto.

O truque é antigo, vem dos imperadores que distribuíam trigo no Aventino enquanto Roma apodrecia por dentro. Trocavam pão e circo por silêncio cívico, e os senadores aplaudiam de pé porque cada saco de cereal entregue na plebe era um contrato de submissão. Mudaram as togas, mudaram as moedas, mudaram os nomes dos programas, mas a engenharia é idêntica. A diferença é que hoje o circo se chama pesquisa de opinião, o trigo se chama transferência condicionada e o senador aplaudindo virou consultor político citado por três colunas no mesmo dia.

E a saúde, prioridade declarada de trinta e quatro por cento dos entrevistados? Eis a maior piada do conjunto. O cidadão entrega quase a metade do que produz em tributos diretos e indiretos, e em troca recebe corredor de hospital lotado, fila de exame marcada para o ano que vem e médico residente exausto que faz milagre com gaze vencida. Se isso fosse contrato privado, o fornecedor estaria preso por estelionato qualificado. Como é contrato público, o fornecedor está em campanha pedindo mais quatro anos para resolver aquilo que ele mesmo não resolveu nos últimos vinte. A lógica é a do mecânico que quebra o seu carro para depois cobrar pelo conserto, e ainda pede gorjeta.

O que a pesquisa de fato mede, no fim das contas, não é o desempenho do governante. Mede a paciência do governado. Enquanto o sujeito aceitar que segurança é favor, comida é benesse e saúde é loteria, vai continuar respondendo questionário, marcando ótimo ou péssimo numa escala de cinco pontos, e financiando com o próprio bolso a máquina que o trata como gado dócil em pasto cercado. O rei está nu há muito tempo. Falta o eleitor levantar os olhos da tigela de sopa e perceber que a manta que o aquece foi tecida com a lã que arrancaram dele no inverno passado.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.