O Democracia Cristã, sigla cuja existência só é lembrada nas vésperas de eleição e nos boletos de fundo partidário, anunciou com pompa de coroação imperial a substituição de Aldo Rebelo por Joaquim Barbosa na vitrine presidencial de 2026. A coisa foi feita do jeito clássico da política brasileira de aluguel: sem aviso, sem consulta, sem cerimônia. Aldo, que havia sido alçado a pré-candidato meses atrás com direito a fotografia e discurso de posse, soube pelos jornais que virou peça obsoleta. Reagiu com uma nota de repúdio, que é o equivalente civilizado de bater a porta do quarto e chorar de raiva. O problema é que ninguém ouviu o estrondo, porque a casa estava vazia.

Convém, antes de qualquer análise sofisticada, perguntar a pergunta que importa: quem paga essa brincadeira? A resposta, como sempre, é o contribuinte. O Democracia Cristã embolsou, somente no último exercício, milhões do fundo partidário, dinheiro confiscado do trabalhador para sustentar a estrutura de legendas que existem precisamente para serem moeda de troca em momentos como este. O partido não tem bancada relevante, não tem programa visível, não tem militância de rua. Tem CNPJ, tem cota de fundo e tem um cargo simbólico chamado pré-candidatura, que pode ser oferecido a celebridades em busca de palanque. É a economia política do nanismo: o cidadão financia compulsoriamente o aluguel das siglas que depois alugam pré-candidaturas para figurões em busca de relevância tardia.

Joaquim Barbosa, por sua vez, encarna uma das ilusões mais persistentes da democracia midiática brasileira, a de que a notoriedade adquirida no tribunal se converte automaticamente em capital eleitoral. Já vimos esse filme. Juízes celebrizados pela imprensa descem do banco achando que a beca pesa nas urnas, e descobrem, sempre tarde, que o eleitor não vota em currículo, vota em narrativa, em interesse, em pertencimento. O cidadão na fila do SUS não está pensando no Mensalão de duas décadas atrás; está pensando no preço do feijão, na conta de luz e no filho que não acha emprego. Toga não alimenta, sentença não emprega, e a memória pública, que muitos confundem com gratidão eterna, tem a duração de um ciclo de notícias.

A premissa do raciocínio é simples e quase ofensiva de tão óbvia: candidato presidencial competitivo precisa de máquina, capilaridade e tempo de televisão. O Democracia Cristã não oferece nenhum dos três em escala minimamente séria. Logo, a candidatura não é candidatura, é performance. Serve para quê, então? Serve para o partido capitalizar visibilidade momentânea, atrair filiações, justificar acesso ao fundo, e talvez negociar mais à frente uma vice ou um apoio no segundo turno por preço maior. Joaquim Barbosa virou, queira ele ou não, ativo financeiro de uma legenda que precisava recauchutar a fachada depois que Aldo perdeu a utilidade publicitária.

E aqui está a comédia humana toda condensada num só episódio. Aldo Rebelo, comunista histórico reciclado em conservador de ocasião, descartado por um partido cristão de fachada, em favor de um ministro aposentado que ascendeu como herói midiático de uma esquerda que hoje o ignora. Três personagens, três trajetórias, três conveniências, e ao fundo o mesmo balcão de sempre, onde se vendem palanques no varejo e se compram aparências no atacado. A política brasileira é o único mercado em que a mercadoria principal é a própria embalagem, e o consumidor final, o eleitor, paga pela embalagem vazia com o imposto retido na fonte antes mesmo de pisar no supermercado.

Fica a pergunta de partida, agora travestida de pergunta de chegada, porque é dela que tudo decorre e a ela tudo retorna. Quem paga essa engrenagem de candidaturas alugadas, repúdios encenados e ressurreições midiáticas? Paga o sujeito que acorda às cinco da manhã, pega dois ônibus, trabalha dez horas e tem o salário descontado para sustentar a festa. Quem recebe? Recebe a casta que faz da política profissão hereditária, das siglas oficina de aluguel, e da indignação seletiva uma forma sofisticada de pedinte com gravata. O resto é folclore eleitoral, e folclore, como se sabe, não muda preço de pão.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.