O fato é simples, brutal e revelador na sua brutalidade: Viktor Orbán, o homem que se apresentou ao mundo como o último bastião da soberania europeia contra o projeto homogeneizante de Bruxelas, perdeu. Perdeu para um candidato de nome Péter Magyar, que chegou ao poder prometendo exatamente o que todo candidato de oposição promete em qualquer latitude, em qualquer século, desde que o jogo eleitoral existe como teatro de substituição das elites, a saber: limpeza, transparência, renovação e uma vaga esperança de que desta vez vai ser diferente. Quinze anos de Fidesz, quinze anos de discurso soberanista, e o partido afundou nas urnas como afunda qualquer governo que confunde a retórica da liberdade com a prática do poder centralizado.

Orbán cometeu o erro clássico de quem começa desconfiando do Estado e termina sendo o Estado. Construiu um aparato de controle sobre a mídia, a magistratura, o funcionalismo e a economia húngara com a eficiência metódica de quem acredita que as ferramentas da opressão ficam limpas quando é a mão certa que as empunha. A história registra, com uma regularidade quase entediante, que as ferramentas da opressão nunca ficam limpas, independentemente de quem as segura. O machado de carrasco não vira bisturi de cirurgião porque o cirurgião o empunha. E agora esse aparato inteiro, cuidadosamente montado por quinze anos, passa para as mãos de Magyar, que vai usá-lo com a bênção de Bruxelas, o sorriso aprovador de Berlim e os editoriais elogiosos de todos os jornais que passaram a última década chamando Orbán de ditador. Engraçado como ninguém chama de ditador o funcionário que obedece ao mandante certo.

Convém seguir o dinheiro, que é onde a política sempre revela o que realmente é. A Hungria estava há anos com bilhões de euros bloqueados pela Comissão Europeia, recursos que Bruxelas retinha como instrumento de pressão sobre um governo que se recusava a alinhar sua política migratória, seu direito de família e sua política externa ao catecismo progressista continental. Magyar, durante toda a campanha, sinalizou de maneira inequívoca que sua relação com as instituições europeias seria de outra natureza. Leia-se: de submissão negociada. Os fundos voltarão a fluir, os tecnocratas de Bruxelas voltarão a sorrir, e a Hungria voltará a ser uma região bem-comportada de uma Europa que nunca soube muito bem o que fazer com a ideia de soberania nacional, exceto quando ela serve aos seus interesses.

Magyar não é uma ruptura. É uma correção de rota dentro do mesmo paradigma. O Estado húngaro continuará imenso, intrusivo, redistribuidor e regulamentador. O que muda é a direção ideológica da redistribuição e o conjunto de valores que o aparato estatal vai promover compulsoriamente. Não há nada de libertário na oposição húngara. Não há nada de liberal no sentido clássico. Há um grupo de pessoas que quer o poder que outro grupo de pessoas tinha, e que usará esse poder para satisfazer um conjunto diferente de clientelas e uma constelação diferente de interesses externos. É a rotina do governo representativo moderno, que há duzentos anos promete ao cidadão soberania e entrega, na prática, a alternância entre gestões de burocratas.

O que se viu na Hungria é também um aviso para quem transforma qualquer político em símbolo de resistência civilizacional. Orbán tinha razão em várias das batalhas que escolheu travar, e errou feio nos métodos com que as travou. Tinha razão ao denunciar o projeto de dissolução das identidades nacionais europeias. Tinha razão ao resistir à política de imigração em massa como solução para problemas demográficos que têm outras causas e outras soluções. Mas a razão nas teses não absolve os erros na prática de governo, e a prática de Orbán foi construir, tijoло por tijolo, um Estado personalista que transformou o controle institucional em instrumento de perpetuação de poder. Quando um regime cai porque ficou caro demais para os que dependem dele, não é uma revolução, é uma rescisão de contrato.

A Hungria acaba de fazer o que as populações cansadas fazem quando não têm alternativa estrutural disponível: trocaram um chefe de Estado que as sufocava pelo lado da soberania por um que promete sufocá-las pelo lado da integração. O eleitor médio de Budapeste pode ter se sentido aliviado. Mas quem conhece a história da região, com seus impérios que se sucederam deixando as mesmas estruturas de dependência com diferentes insígnias na fachada, sabe que a placa trocada na porta da administração raramente significa mudança de função no prédio. O Estado continua de pé, maior e mais apetitoso do que nunca, esperando pelo próximo inquilino.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.