Um jornalista empregado por uma afiliada da Rede Globo no interior de São Paulo achou por bem se referir à Bíblia Sagrada com palavrões. O fato está documentado, foi ao ar, chegou a ouvidos e olhos de telespectadores que não pediram para ouvir aquilo, e a reação institucional foi o que sempre é nestes casos: o ruído branco do nada. Nenhuma nota, nenhuma demissão, nenhum constrangimento público digno desse nome. O profissional "se disfarça e se confunde entre o normal", como descreveu quem registrou o caso, e essa frase acidental talvez seja a mais precisa que já se escreveu sobre o mecanismo pelo qual a degradação moral se instala numa cultura: não pela conquista, mas pela naturalização.

Há uma lógica nisto que vale a pena examinar sem pressa. Quando alguém profere um insulto público contra o Corão, o protocolo de crise é ativado em minutos: pedido de desculpas, afastamento preventivo, comissão de ética, declaração de solidariedade, cobertura exaustiva dos veículos que seriam os primeiros a ignorar o episódio análogo envolvendo o texto cristão. A assimetria não é acidente nem distração. É política editorial sedimentada ao longo de décadas, executada com a consistência de quem sabe exatamente o que está fazendo e por quê. A pergunta não é se essa assimetria existe, porque ela existe com a clareza de uma fatura vencida. A pergunta é por que uma parte tão grande da sociedade financia com sua audiência, sua atenção e sua credulidade o aparato que a despreza.

O livro em questão não é uma relíquia de museu nem uma peça de folclore regional. É o fundamento moral e civilizacional sobre o qual a própria ideia de dignidade humana foi construída no Ocidente, ideia sem a qual não existe imprensa livre, não existe direito individual, não existe nenhum dos instrumentos que o jornalista em questão usa para ganhar o salário que lhe permite, com toda a comodidade do mundo, insultar a fonte da qual brotou a civilização que o protege. Existe uma palavra antiga para essa condição: ingratidão. Existe outra, mais precisa ainda: parasitismo intelectual. O homem que cospe no poço do qual bebe não é um rebelde, é um imprudente; não é um corajoso, é um beneficiário disfarçado de crítico.

A cultura do "deixa pra lá" não é brandura, é cumplicidade com roupagem de tolerância. Toda vez que uma ofensa desta natureza é absorvida pelo silêncio coletivo, o ofensor aprende que o custo daquela ação é zero, e o próximo passo na mesma direção já nasce autorizado. É assim que os limites se movem: não por decreto, mas por iteração, um "deixa pra lá" de cada vez, até que o absurdo de ontem vire o mínimo aceitável de hoje e o patamar de amanhã precise ser ainda mais baixo para produzir a mesma sensação de provocação que o agente busca. Roma não foi construída num dia, e também não foi destruída. Foi corroída, grão por grão, exatamente por este mecanismo.

Existe aqui também uma questão de honestidade intelectual que o ambiente jornalístico nacional trata como se fosse veneno. Se a liberdade de expressão é o argumento, que seja aplicado com consistência, ou que não seja usado nenhuma vez. Uma liberdade que protege o xingamento contra o livro sagrado de uns e aciona a censura imediata contra qualquer palavra que desagrade a outro grupo não é liberdade, é privilégio distribuído com critério político. E privilégio distribuído com critério político tem outro nome no dicionário das coisas como elas são: poder. O que está em jogo neste episódio não é teologia, é a pergunta de quem, neste país, tem o direito de ser ofendido com consequências e quem suporta o insulto com o silêncio sugerido pelas mesmas instituições que deveriam garantir tratamento igual a todos.

A solução não é lei, não é censura, não é comissão parlamentar. É algo muito mais simples e muito mais difícil: a recusa. A recusa de audiência, a recusa de financiamento, a recusa do "deixa pra lá" como resposta padrão. Uma sociedade que não defende o que considera sagrado não está sendo tolerante, está sendo treinada. E o treinamento, como todo processo de condicionamento, funciona melhor quando o condicionado não percebe que está sendo condicionado.

Com informações do Pleno News. A análise e opinião são do O Algoz.