O comunicado tem aquele tom inconfundível de tio chato no churrasco, o mesmo que primeiro derrama o vinho na sua camisa e depois recomenda que você compre uma marca melhor de tira-manchas. O Detran, esse Leviatã de guichê com cheiro de café requentado, vem a público lembrar que a CNH Digital, vendida durante anos como a oitava maravilha da modernização estatal, talvez não funcione quando o guarda bater na sua janela. Pode faltar internet, pode faltar memória no celular, pode faltar a senha que você jurou nunca esquecer e esqueceu. A solução genial proposta pelo próprio órgão é, prepare-se, baixar o documento antes de sair de casa. Pagamos uma estrutura inteira para receber, como serviço, a instrução de fazer o serviço nós mesmos.

A pergunta inevitável é quem ganha com essa encenação. O cidadão paga taxa para emitir a carteira física, paga novamente para acessar a versão digital, paga implicitamente pelos servidores, pelos contratos de tecnologia, pelos convênios com empresas terceirizadas que sempre aparecem com sobrenome conhecido de político. No fim da fila, recebe um aplicativo que funciona quando o sinal é bom, o aparelho é bom, a vontade do sistema é boa e o santo está alinhado. Quando algo falha, a multa cai sobre quem confiou na promessa oficial. É o velho truque do vendedor de óleo de cobra que cobra adiantado, entrega um vidro vazio e culpa a fé insuficiente do freguês pela cura que não veio.

Há um silogismo embutido nessa palhaçada que ninguém quer pronunciar em voz alta. Se o Estado obriga você a portar um documento, e se o Estado oferece esse documento por meio digital, então o funcionamento do meio digital é responsabilidade do Estado. Qualquer estudante de lógica do primeiro semestre fecha a conta. Mas a burocracia inverte a equação com a desfaçatez de mágico de circo decadente, transformando a falha estrutural em desatenção individual. É como o coletor de impostos medieval que, ao constatar que o camponês não tinha moeda, confiscava a cabra e ainda registrava o episódio como contribuição voluntária ao reino.

Convém lembrar que a tal modernização foi anunciada com fanfarras, releases bombásticos, fotos sorridentes de autoridades segurando smartphones como se tivessem inventado o fogo. Nenhuma dessas autoridades, é claro, será parada numa blitz às onze da noite num trecho de estrada sem sinal de celular, com bateria a três por cento e um agente fardado batendo no vidro. Para essas pessoas, o aplicativo sempre funciona, porque para elas o Estado sempre funciona. A modernização que vendem é uma vitrine de loja chique, com aquele cordão de veludo proibindo a entrada de quem realmente paga a conta.

O recado verdadeiro escondido no aviso oficial é uma confissão de impotência travestida de zelo. O órgão admite, sem corar, que o sistema que ele próprio impôs não é confiável, e ainda assim continuará punindo quem depender dele. Em qualquer relação privada essa seria a definição clássica de propaganda enganosa, com direito a processo, indenização e talvez prisão de diretor. No balcão estatal, vira nota técnica, dica amigável, aceno paternal. O monopólio tem essa elegância peculiar de transformar incompetência em conselho gratuito.

Resta ao motorista o ritual antigo de qualquer súdito diante do senhor feudal de plantão, baixar a cabeça, baixar o aplicativo, baixar a expectativa. Quem paga continua sendo o de sempre, e quem recebe continua sendo o de sempre, com a diferença de que agora há um ícone bonito na tela do celular para disfarçar a velha extorsão de sempre. O rei segue nu, só trocou o manto por uma interface responsiva.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.