Num domingo de setembro, o ministro decidiu que era hora de retirar o sigilo das investigações sobre a cinebiografia do ex-presidente e, no mesmo fôlego, insinuar que a maior facção criminosa do país teria dedos na produção cinematográfica. É o tipo de manchete que, se aparecesse num roteiro de ficção, o produtor devolveria pedindo verossimilhança. Mas aqui está, servida em bandeja institucional, com timbre de Suprema Corte e a solenidade de quem confunde despacho judicial com crítica do Cahiers du Cinéma. Quem paga a conta desse espetáculo? O contribuinte, que sustenta a estrutura inteira para ver ministro brincar de Roger Ebert com dinheiro público.

A pergunta que ninguém no salão quer fazer é a mais elementar: por que um filme sobre um adversário político merece a atenção de uma investigação de tal envergadura, a ponto de mobilizar o gabinete de um ministro do Supremo num fim de semana? Cinebiografias são feitas às pencas todos os anos, sobre santos, bandidos, jogadores de futebol e cantores decadentes, e jamais renderam um único inquérito. A resposta salta aos olhos de quem não perdeu o hábito de raciocinar: o crime aqui não é o filme, é o filmado. E o inquérito não investiga, ele intimida. A diferença entre justiça e perseguição é sutil, mas quem viveu o suficiente aprende a farejar a segunda a quilômetros de distância.

Segue a mecânica: primeiro se cria a suspeita, depois se retira o sigilo estrategicamente, e por fim se cola o nome do investigado à sigla mais tóxica que a memória popular guarda. É a velha técnica da associação por contiguidade, aquela que reis medievais usavam para acusar rivais de bruxaria e a Inquisição refinou até virar arte. Não é preciso provar a ligação, basta sussurrá-la em rede nacional. O acusado passa o resto da vida jurando que não pertence à facção, e o público, cansado, guarda apenas o eco do sussurro. Missão cumprida. Zero balas gastas, reputação inteira demolida.

E aqui a pergunta rothbardiana volta à mesa com toda sua elegância brutal: quem se beneficia dessa suspeita fabricada? Não é o cidadão comum, que continua sendo assaltado no ponto de ônibus enquanto o Estado gasta seus impostos investigando roteiros cinematográficos. Não é o mercado, sufocado por uma insegurança jurídica que já é folclore internacional. Beneficia-se o grupo político adversário do biografado, beneficia-se o próprio togado que reforça seu protagonismo midiático, e beneficia-se a máquina que se sustenta produzindo espetáculo. Toda medida estatal cria vencedores e perdedores concretos; a neutralidade do juiz é ficção que só convence quem nunca leu o boletim de honorários dos amigos do rei.

Há algo de profundamente cômico, e ao mesmo tempo assustador, no espetáculo de um ministro insinuando conexões entre facção criminosa e produção cultural sem apresentar de imediato a prova cabal. Se houvesse a prova, seria denúncia, seria ação penal, seria processo formal e detalhado. Não sendo, é o quê? É boato judicializado. É fofoca com carimbo oficial. É o poder monopolista da violência legítima usando o megafone da toga para pautar a conversa nacional, enquanto os problemas verdadeiros do país seguem em sigilo perpétuo, esses sim protegidos por camadas e camadas de silêncio corporativo.

No fim, o cidadão que assiste tudo isso pela tela do celular deveria se lembrar de uma verdade simples que sucessivas gerações teimam em esquecer: quando quem detém a espada resolve virar crítico de arte, o problema nunca é a arte. É a espada. E a pergunta original, aquela que abre e fecha toda investigação honesta sobre o poder, permanece intocada, ecoando na sala vazia do Congresso e nos corredores acarpetados do tribunal: quem paga, e quem recebe? Você, leitor, paga. E não é você quem recebe.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.