Cenas que se repetem com a pontualidade de um relógio suíço. Famílias libanesas atravessam estradas esburacadas rumo ao sul, carregando o pouco que sobrou em sacolas plásticas, para descobrir que suas casas viraram pó geométrico. A resposta oficial é sempre a mesma ladainha sobre o direito de defesa, sobre alvos legítimos, sobre danos colaterais que nunca são colaterais para quem dormia dentro deles. O bombardeio continua mesmo após o cessar-fogo, porque cessar-fogo, no dicionário da diplomacia contemporânea, significa apenas uma pausa para recarregar os estoques e renegociar os contratos.

Há uma aritmética sinistra que ninguém coloca na manchete. Cada prédio derrubado no sul libanês representa uma encomenda futura de aço, cimento, vidro, tubulação, fiação elétrica. Cada cratera é uma obra pública aguardando licitação. O capital internacional já aprendeu, há muito tempo, que a destruição é a mais rentável das indústrias porque vende duas vezes: primeiro a bomba, depois o tijolo. Os nomes das empreiteiras que levantarão Beirute e as vilas do Litani daqui a alguns anos já estão em rodadas preliminares nos escritórios do Golfo e de Washington, enquanto os donos das casas ainda sequer enterraram os parentes.

A lógica é antiga e entediantemente consistente. Desde que impérios existem, periferias são usadas como laboratórios cinéticos. O sul do Líbano cumpre exatamente o papel que outras faixas de terra cumpriram antes, do Vietnã à Sérvia, do Iraque ao Iêmen. Você pulveriza a infraestrutura, desloca a população, instala uma crise humanitária, chama as agências multilaterais que chegam com pacotes de ajuda amarrados a condicionalidades, empresta dinheiro a juros de agiota ao governo fragilizado e, na ponta, quem pagou tudo foi o contribuinte de três continentes. O palestino, o libanês, o israelense pobre e o trabalhador americano que nunca viu Beirute no mapa financiam juntos a mesma festa, e nenhum deles está na lista de convidados.

Chama atenção o cinismo com que a imprensa internacional trata o retorno dessas famílias como uma espécie de espetáculo de resiliência. Não é resiliência, é desespero. Quem volta para inspecionar a ruína não está celebrando nada, está medindo o tamanho do abismo e calculando se prefere morrer perto dos mortos ou viver como estrangeiro num campo de refugiados qualquer. A escolha entre permanecer sob mira de drones e emigrar para virar mão de obra barata em alguma capital europeia é a liberdade que o Estado moderno oferece aos seus súditos mais inconvenientes. Escolha A ou escolha B, nunca escolha C, porque C significaria soberania real e soberania real não está em oferta.

Enquanto isso, o Hezbollah negocia, o governo libanês pede calma, Teerã observa, Washington envia delegados, o Qatar intermedeia, Paris finge preocupação e Moscou aguarda o momento de monetizar o caos. Cada capital do tabuleiro move sua peça com objetivos que nada têm a ver com a senhora de setenta anos que voltou ontem para encontrar a laje da cozinha sobre a estante onde guardava as fotos do casamento. Ela não está na equação. Nunca esteve. O indivíduo concreto, com seu nome, seu cheiro, sua memória, nunca entra nas estatísticas que decidem o curso dos bombardeios. Ele é a unidade subatômica sobre a qual se constrói o produto interno bruto da carnificina.

O sul do Líbano não precisa de mais pronunciamentos, não precisa de mais missões de observação, não precisa de mais pacotes humanitários com logotipo bordado. Precisa que o mundo pare de lucrar com sua destruição, o que, convenhamos, é pedir ao lobo que se torne vegetariano por convicção moral. Enquanto cada tonelada de explosivo gerar dividendo trimestral em bolsa, enquanto cada refugiado gerar contrato de assistência internacional, enquanto cada fronteira incendiada justificar um orçamento militar inflado na temporada seguinte, as famílias continuarão voltando para os escombros e os escombros continuarão sendo fabricados com precisão industrial. A guerra não é falha do sistema, é o sistema funcionando exatamente como foi projetado.

Com informações da Al Jazeera. A análise e opinião são do O Algoz.