Existe um fenômeno curioso que ocorre toda vez que chove no Brasil: as pessoas morrem de surpresa. Não de surpresa com a chuva, que aqui cai com regularidade de relógio suíço dependendo da estação, mas de surpresa com o fato de que o carro não para onde deveria parar. A distância de frenagem aumenta dramaticamente sobre asfalto molhado, o coeficiente de atrito despenca, e o motorista que entrou na pista com confiança de piloto descobre, a noventa quilômetros por hora, que física não negocia com otimismo. Isso não é novidade. Isso está em qualquer manual de engenharia mecânica, em qualquer curso sério de direção defensiva, em qualquer país que leve a sério a relação entre o cidadão e a via pública. No Brasil, porém, o óbvio físico compete com o absurdo institucional, e o absurdo, cá entre nós, leva vantagem.

O que a análise técnica sobre aquaplanagem e sistemas ABS revela, sem querer revelar, é o tamanho do fosso entre o que o Estado cobra e o que o Estado entrega. O brasileiro paga, por litro de combustível, uma carga tributária que envergonharia qualquer país civilizado. Paga IPVA sobre o carro, ICMS sobre o seguro, pedágio sobre a estrada que teoricamente já foi paga com o imposto de renda que financiou sua construção décadas atrás. E em troca recebe o quê, exatamente? Recebe asfalto que desaparece na primeira enxurrada de outubro, sinalização apagada que some junto com a tinta, e uma educação de trânsito que é pouco mais do que uma prova de múltipla escolha que qualquer macaco treinado aprovaria. O ABS do seu carro foi desenvolvido por engenheiros alemães e japoneses que levaram décadas de pesquisa privada para resolver um problema que a física colocou. O asfalto rasgado que está sob as suas rodas foi feito pelo menor preço numa licitação que todo mundo sabe como termina.

A aquaplanagem, para quem não sabe, é o momento em que uma película d'água se forma entre o pneu e o pavimento e o motorista deixa de dirigir para simplesmente ser um passageiro dentro de um projétil. O coeficiente de atrito, essa grandeza que garante que o carro obedeça ao motorista em vez de às leis da hidrodinâmica, depende de dois fatores que se encontram na superfície de contato: o estado do pneu e o estado do pavimento. Sobre o pneu, o motorista tem alguma responsabilidade, ainda que responsabilidade cara, porque o conjunto de quatro pneus que garante sua vida e a vida dos outros custa o equivalente a um mês de salário mínimo. Sobre o pavimento, ele não tem nenhuma responsabilidade e nenhum controle, só o dever de pagar por ele indefinidamente através de tributos que não caducam, não prescrevem e não se traduzem em concreto de qualidade. Já houve civilizações que construíram estradas tão bem feitas que resistiram dois mil anos. Hoje, uma avenida municipal dura uma estação das chuvas. A diferença não é tecnológica.

Os sistemas de assistência eletrônica, ABS, EBD, controle de estabilidade, são conquistas reais da engenharia privada que salvam vidas diariamente apesar do ambiente hostil que as cerca. O ABS impede o travamento das rodas, mantém a capacidade de esterçar durante a frenagem de emergência, reduz a distância de parada em superfícies irregulares. O EBD distribui a força de frenagem proporcionalmente entre os eixos. São sistemas sofisticados, caros, obrigatórios por lei nos veículos novos, e que funcionam dentro de limites físicos que nenhum algoritmo consegue superar quando o asfalto está esburacado, quando a canaleta de escoamento está entupida de lixo que o serviço de limpeza urbana não recolheu, quando a velocidade da via foi fixada por um engenheiro que jamais pisou nela com chuva. A tecnologia compensa até certo ponto a negligência, mas não é infinitamente elástica.

O escândalo maior, porém, não é nem o asfalto ruim nem o pneu caro. É a ausência deliberada de educação de trânsito séria num país que tem uma das maiores frotas de veículos do mundo e um dos maiores índices de mortalidade no trânsito do planeta. Frear corretamente na chuva, entender o comportamento do veículo sobre pavimento molhado, saber o que é aquaplanagem e como reagir a ela, são conhecimentos que qualquer motorista deveria ter antes de pegar as chaves pela primeira vez. Em vez disso, o que existe é um processo de habilitação que funciona como uma taxa disfarçada, uma burocracia que protege o mercado das autoescolas credenciadas e garante aprovações suficientes para que o fluxo de dinheiro não pare, sem nenhuma garantia de que o motorista aprovado sabe de fato o que faz quando a chuva cai e a pista escorrega. O resultado aparece toda temporada de chuvas nas rodovias federais, nas marginais alagadas, nas estatísticas que ninguém lê até que alguém próximo vire uma delas.

A física é implacável e democrática: não escolhe partido, não lê nota de repúdio, não atende telefonema de assessor. Quando a velocidade é alta, a pista está molhada e o coeficiente de atrito não é suficiente para converter a energia cinética em calor nos freios antes do obstáculo, o carro não para. Isso é tudo. A questão que ninguém faz nos pronunciamentos oficiais depois de cada tragédia chuvosa é simples: quantos bilhões foram arrecadados em tributos sobre combustível, propriedade de veículo e uso de vias no último ano, e qual percentual disso se converteu em asfalto correto, sinalização visível, drenagem funcional e educação de motoristas que vá além de uma prova decorada? Quem responder essa pergunta com honestidade terá entendido não só por que a distância de frenagem aumenta na chuva, mas por que o Brasil continua matando seus motoristas com a mesma regularidade pontual com que os tributos vencem todo mês.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.